Inveja e olho grande

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Eu poderia ter iniciado esse artigo afirmando que inveja é aquilo que todo mundo sabe, mas prefiro utilizar um caminho diferente ao relacionar a inveja com aquilo que todo mundo não sabe, caso contrário, a sociedade seria mais justa e menos egoísta, mais humana e menos desunida. Originalmente, inveja é uma palavra derivada do latim invidere que, na tradução literal, significa não ver ou ainda não perceber as coisas como elas realmente são.

A inveja está diretamente relacionada com a natureza humana desde os tempos mais primitivos. A palavra é citada na Bíblia, no Alcorão, no Talmude, no Tao Te Ching, no Rig-Veda e nos mais diferentes escritos que você possa imaginar, afinal, é uma das características negativas mais marcantes do ser humano em qualquer lugar da Terra. Nas palavras de Richard Dawkins, cientista inglês, a inveja é o nosso gene egoísta em ação.

inveja

A história está recheada de exemplos da mais absoluta inveja entre irmãos, governantes, reis, rainhas, artistas, esportistas e seres humanos comuns que, não tendo suportado a felicidade e o bem-estar alheio, cometeram delitos e crimes de toda ordem. Por pura inveja e falta de objetivos na vida, pessoas comuns incorporam deuses, tiram a vida umas das outras, caluniam, difamam, mentem para si mesmo, dissimulam, se tornam violentas, espalham maldade, semeiam a discórdia e puxam o tapete alheio em vez de reagir às dificuldades.

Olhe ao redor e avalie o número limitado de pessoas que conquistam um lugar ao sol graças a um talento especial e ao esforço incomum. Pessoas que saem do nada e, por livre e espontânea vontade, reagem, superam obstáculos, dão a volta por cima e constroem histórias de sucesso. Da mesma forma, você verá uma infinidade de pessoas incomodadas com o sucesso, o patrimônio, o companheiro, o carro, a roupa e o comportamento alheio.

As primeiras estão permanentemente ocupadas em aprender, crescer, atingir objetivos, superar obstáculos, fazer o bem e compartilhar o que sabem, sem ter que, necessariamente, prejudicar as demais. As outras se ocupam da fofoca, da vida oca de algumas celebridades, das baboseiras e críticas infrutíferas publicadas em sites de relacionamento, da esperança que o tio rico parta desta para melhor e deixe seus bens como herança, de semear a injúria por onde passam na tentativa de amenizar a frustração sustentada por uma vida medíocre e sem sentido.

Em vez de provocar reação ou indicar um caminho promissor para o seu hospedeiro, a inveja torce pela desgraça e ofusca o sucesso alheio. A inveja nunca será positiva, pois é fruto da incapacidade humana de enxergar as características positivas nas pessoas, da falta de objetivos, da ausência de discernimento, da mais absoluta ignorância, da competição desenfreada. A necessidade de subir na vida a qualquer preço, de ocupar um cargo sem o respectivo merecimento e a vontade de possuir aquilo que não lhe pertence tornam a inveja uma doença praticamente incurável.

Se a inveja é o mais sincero dos elogios, segundo John Churton Colllins, crítico literário e conferencista inglês, deve-se tomar cuidado, afinal, dependendo da origem, o elogio pode não ser tão sincero. É quando ele provém de pessoas portadoras de olho grande, munidas de um permanente estado de descontentamento e complexo de inferioridade. Talvez você não acredite muito nisso, porém não custa nada se prevenir. A inveja é um recurso poderoso aos olhos de quem vai passar a vida lamentando o passado infeliz e a falta de sorte.

Ser produtivo com a intenção de melhorar a sociedade é a missão mais difícil do mundo. Ser invejoso com a intenção de prejudicar alguém é a coisa mais simples do mundo. Por quanto tempo você ainda terá de conviver com pessoas cujo passatempo predileto é a preocupação com a vida alheia? O tempo que você julgar conveniente, afinal, as coisas não mudam enquanto você não muda a sua forma de ver, pensar e agir em relação ao que acontece no mundo.

Pode-se relacionar inveja a tudo na vida, exceto à incapacidade humana de desconhecer o seu significado. Não existe esse negócio de não ter consciência dos seus atos. O ser humano conhece bem o significado da inveja, da ganância, do poder, da ambição, da empáfia, da prepotência e de outros predicados inerentes ao desejo inequívoco de possuir aquilo que os outros possuem.

Para reduzir a ansiedade e administrar aquela inveja natural, é preciso filtrar os pensamentos e canalizar energia para coisas que valem a pena. Desejar, ansiar e ambicionar sem esforço não é digno de merecimento. É fato que muitas pessoas conseguem as coisas de maneira ilícita e não ética, mas isso o tempo e a consciência haverão de corrigir. A inveja é a uma espécie de arma inútil de quem decidiu viver a vida sofrendo por conta da felicidade alheia.

De acordo com Ralph Waldo Emerson, poeta e ensaísta norte-americano, “Os bons são favorecidos até mesmo pela fraqueza e pelo defeito. Assim como nenhum homem jamais teve uma ponta de orgulho que não lhe fosse prejudicial, assim também nenhum homem jamais teve um defeito que não lhe fosse de algum modo útil”, portanto, concentre-se no que você tem de melhor que o tempo e o esforço se encarregarão do restante. Não entregue tudo para a consciência, pois ela é vacilante e apenas reflete uma coleção de comportamentos competindo uns com os outros.

Por fim, lembre-se das sábias palavras de Khalil Gibran, escritor libanês, autor de O Profeta: “Vossa alma é, muitas vezes, um campo de batalha, no qual vossa razão e vosso julgamento entram em guerra contra paixão e vosso desejo”; portanto, quanto menos você desejar o que não lhe pertence e mais trabalhar para conquistá-lo, honestamente, menor será o sofrimento e maior a chance de produzir o bem.

Pense nisso e seja feliz!

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