Tudo na vida vale a pena [ 3 lições para nunca mais esquecer ]

A simplicidade das coisas

Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Escolhi esses versos do poema Mar Português, de autoria do grande poeta Fernando Pessoa, para iniciar esse artigo considerando a profundidade do seu significado e a importância da afirmação na vida do mais simples ser humano.

Antes, porém, eu quero compartilhar uma pequena história contigo. Há algum tempo, quando eu trabalhava no centro de Curitiba, era necessário deixar o carro no estacionamento, distante em torno de duzentos metros do escritório onde eu passava o dia resolvendo os problemas da empresa e dos clientes.

Quando você coloca a vida profissional acima de qualquer coisa, os problemas particulares geralmente são relegados ao segundo plano, mas isso é outra história e depois de tanto tempo, não vale a pena remoer, serve apenas de lição.

Durante o trajeto, dia sim, dia não, eu encontrava dona Margarida, a gari mais simpática e educada que conheci na vida. No primeiro instante, considerando aquela aparência rude e humilde, não era difícil prejulgar que ela fosse uma dessas pessoas que tinham tudo para ficar de mal com a vida, porém o brilho no olhar era sua marca registrada.

Diante de tanta simpatia e perspicácia, não havia como seguir adiante sem trocar algumas palavras com aquela senhora que, independentemente da sua história e da profissão, sabia cativar as pessoas.

Dona Margarida foi abandonada pelo marido, tinha quatro filhos, dos quais dois moravam contigo, e sete netos que ela ajudava a sustentar com os seus míseros vencimentos de gari, algo em torno de um salário-mínimo e meio na época.

Apesar do trabalho extenuante, das mínimas chances de crescimento na empresa, algo com o qual ela não se preocupava e, se me lembro bem, de apenas uns sete ou oito dentes à mostra, ela cursava o ensino médio numa escola pública à noite, um verdadeiro ato de heroísmo para uma mulher na sua condição.

Artigo | Jerônimo Mendes

Tudo na vida vale a pena

Nos fins de semana dona Margarida passava parte do tempo fazendo pães e bolos para vender e arrecadar mais alguns trocados com intuito de ajudar os filhos e alimentar os netos. Isso ela contava com orgulho e lágrimas nos olhos, mas com a plena convicção de estar cumprindo com a missão de ajudá-los a viver felizes e bem encaminhados na vida.

De fato, quatro anos se foram no mesmo local e não me lembro de ter encontrado aquela mulher ensimesmada, desanimada ou reclamando da vida. Ao contrário, eu torcia para encontrá-la no caminho, pois ela era a alegria em pessoa, gostava de poesia e tinha sempre alguma na cabeça.

Na época eu estava no auge da minha produção poética e isso nos aproximou de alguma forma. Nossa pauta de reunião era Drummond, Castro Alves, Cruz e Sousa, Fernando Pessoa e coisas do gênero.

A rua era movimentada e os que olhavam aquela cena, de dentro dos carros ou dos ônibus, talvez dissessem algo do tipo: o que é que pode estar rolando entre uma mulher no papel de gari e um executivo qualquer? Sinceramente, nunca me importei muito com isso.

Tempos depois, quando a empresa decidiu mudar de endereço, uma das coisas que me deixaram chateado foi o fato de ter perdido a companhia matinal de dona Margarida, alguém que me ensinou muito mais do que alguns livros e horas de aula na Faculdade.

Ela me fez ver o lado bom da vida, pois era inevitável a comparação da minha profissão, da minha condição de vida e do meu local de trabalho com o dela. Depois de cinco ou dez minutos de bate-papo, seria intransigência de minha parte a mais simples reclamação. Com ela eu consegui entender o que significa ser simples.

Numa das últimas conversas que tivemos, ela discorreu alegremente sobre Fernando Pessoa e declamou o seu poema mais conhecido, do início ao fim, sem pestanejar.

Aquilo me marcou tanto que eu não sosseguei até aprender o poema de cor e salteado, como se dizia no passado. Toda vez que a tristeza toca meus ombros, eu me lembro dela dizendo “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

A tendência ao prejulgamento

Diariamente, milhares de pessoas cruzam o nosso caminho com desejos parecidos: ganhar dinheiro, sobreviver, pagar as contas, sustentar a família, subir na vida, conseguir emprego, ter sucesso.

Algumas querem mais, outras querem menos, algumas se contentam com pouco, outras não se contentam nem com muito. Desejos não significam apenas dinheiro, mas reconhecimento, valorização e um pouco de orgulho próprio.

Do alto da sua simplicidade, dona Margarina deixou uma grande lição que tem norteado a minha conduta sempre que eu me sinto tomado pela ansiedade e me vejo descrente em relação aos meus objetivos: “existem coisas sem as quais eu posso viver tranquilamente e minha alegria está diretamente relacionada ao meu estado de espírito”.

O fato de você ter ou não ter carro do ano, ser ou não ser uma pessoa de sucesso, ter ou não ter um cargo de alto nível, viver ou não viver numa mansão confortável, não faz de você melhor nem pior do que a mais simples criatura na face da Terra.

Infelizmente, por vezes somos medidos pela quantidade de bens que possuímos e não pela quantidade de bem que praticamos. Isso nos leva a prejulgar e a rotular as pessoas menos favorecidas pela sociedade, segundo a nossa própria escala de valores. E poucas coisas são tão destrutivas e malignas quanto rotular ou prejulgar as pessoas pelas suas posses.

Tudo na vida vale a pena

Da minha feliz e rápida convivência com Dona Margarida, além da lição principal, sobraram ainda algumas reflexões que considero úteis na vida pessoal e profissional, razão pela qual tomei a liberdade de dividi-la com vocês:

  • As pessoas que cruzam o nosso caminho, independentemente da origem, cor, sexo, religião, escolaridade e saldo bancário, sempre têm algo a nos ensinar desde que estejamos abertos aos pontos de vista alheios em vez de discutirmos o todo tempo para fazer valer somente aquilo que pensamos ser correto.
  • A liberdade de ideias, opiniões e pensamentos é o maior patrimônio que alguém pode desejar. Sem isso valemos pouco, entretanto, o respeito aos pontos de vista alheios e a troca de ideias é que nos faz dignos de perceber a diferença entre pessoas pobres e pessoas ricas de espírito
  • Tudo na vida vale a pena quando você tem a plena convicção de estar cumprindo a sua missão. E sua missão nada mais é do que doar-se por inteiro onde quer que você esteja, em qualquer atividade que você realize, em qualquer projeto que você abrace com a alma e o coração, aí sim terá a certeza de estar contribuindo para tornar o mundo mais justo e mais digno para todos.

Eu ficaria muito feliz ao encontrar dona Margarida novamente. Falo “dona” em sinal de respeito, pois imagino que ela devia ter mais de cinquenta anos na época e, apesar das adversidades, conseguia manter o sorriso nos lábios.

Acredito que a sabedoria divina lhe reservou melhores dias. Ela era dotada de todos os ingredientes necessários para fazer a vida valer a pena: fé, determinação, otimismo e um amplo sentido de contribuição, sem contar o brilho inconfundível nos olhos.

O que para muitos parece uma simples varredura de rua, para outros é a única oportunidade de se mostrar útil e dizer que a vida pode ser vivida de maneira simples, porém intensa.

As palavras de Stephen King, escritor norte-americano, encerram a nossa lição de hoje: “O talento é mais barato do que um saleiro. O que separa uma pessoa talentosa de uma bem-sucedida é o trabalho”.

Tudo na vida vale a pena se a alma não é pequena. Pense nisso e seja bem mais feliz!

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