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A sociedade do cansaço e a perda de identidade

A sociedade do cansaço: uma reflexão sobre trabalho, redes sociais e a dificuldade contemporânea de existir sem plateia.

Você consegue se desligar do trabalho durante as férias ou ainda carrega o celular da empresa para não perder nada do que acontece por lá?

Você consegue correr, viajar ou fazer um simples passeio no fim de semana sem sentir necessidade de registrar tudo nas redes sociais?

Você consegue parar de produzir por um dia, sem transformar a pausa em culpa ou em mais uma tentativa de se sentir relevante?

Segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha e autor de A Sociedade do Cansaço, vivemos uma época em que o inimigo já não está apenas fora de nós: ele também se instala na cobrança permanente por desempenho.

Comer, correr, opinar, viajar, trabalhar, empreender ou criar filhos parece ter virado prova pública de competência, beleza, sucesso e pertencimento.

A impressão é a de que tudo precisa ser transformado em narrativa: cuidadosamente registrado, editado, publicado e, acima de tudo, validado.

A sociedade do cansaço e a perda de identidade
A sociedade do cansaço

O problema não é apenas o cansaço físico, mas, sobretudo, o esgotamento mental. Burnout, depressão, fadiga crônica, síndrome do pânico e TDAH, entre outras manifestações do nosso tempo, raramente surgem de uma hora para outra.

Como afirma Han, certas patologias neurais nascem do excesso de positividade e da ideia, repetida à exaustão, de que cada indivíduo pode fazer tudo, ser tudo e superar qualquer limite. O resultado é uma cobrança acima da própria capacidade de realização.

Com exceção do TDAH, que pode ter origem genética, muitas dessas condições são agravadas por um processo social de cobrança contínua, no qual produzir, responder, aparecer e performar parecem valer mais do que preservar a própria saúde.

Nesse contexto, nossos inimigos já não são apenas a Guerra Fria, o colega mais habilidoso ou o vizinho bem-sucedido. O adversário agora também é a obrigação de se posicionar o tempo todo, escolher um lado, medir palavras e provar valor em público.

A exaustão não nasce da contemplação, da paz de espírito, do descanso ou do ócio criativo. Ela nasce da exigência permanente de alto desempenho, da dificuldade de dizer não e da multiplicação de tarefas que ocupam até os intervalos da vida.

Da mesma forma, ansiedade, depressão e tédio podem ser intensificados pela competição nas redes sociais, onde a aparência de sucesso muitas vezes decide quem merece atenção, admiração ou relevância.

Esse peso é ainda mais evidente para muitas mulheres, pressionadas a conciliar corpo ideal, maternidade, carreira próspera, relacionamento estável e juventude permanente. Tudo precisa parecer simples, natural e impecável, como se o esforço não tivesse custo.

Ser multitarefa pode parecer uma habilidade indispensável, mas tem um preço elevado para qualquer pessoa. Quando tudo vira urgência, até o descanso passa a ser visto como atraso.

Não se trata de demonizar trabalho, ambição ou redes sociais, mas de perguntar em que momento esses elementos deixam de servir à vida e passam a governar a autoestima.

Viver já é suficientemente difícil. Há dias bons e dias ruins, relações complexas, papéis sociais cansativos e momentos em que muita gente finge estar bem enquanto tenta manter de pé o próprio mundo particular.

Um dos maiores desafios do ser humano, tanto no campo pessoal quanto no profissional, é deixar de depender da validação alheia: viajar sem postar, existir sem plateia, ser feliz sem ostentar e crescer sem transformar a própria evolução em anúncio.

A carência humana costuma buscar exposição. Ao que parece, quanto menor a sensação de autorrealização, maior tende a ser a necessidade de aprovação externa.

Na prática, a competição constante, a obrigação de se posicionar e a promessa de que só haverá reconhecimento para quem produz conteúdo o tempo inteiro revelam uma lógica frágil e, muitas vezes, desumana.

Qualquer pessoa tem limites, e o burnout é uma das provas mais consistentes de que ninguém consegue ultrapassar indefinidamente aquilo que o corpo e a mente são capazes de sustentar.

O que faz sentido para você, e não apenas para a validação alheia? Por que tudo precisa ser registrado, editado, publicado e curtido? Quem decidiu que uma pessoa só tem valor quando se encaixa no ideal do profissional de alto desempenho?

Cada nova habilidade acrescentada ao currículo, cada aplicativo que transforma a rotina em estatística e cada esforço feito apenas para pertencer a um sistema perverso de desempenho podem, aos poucos, corroer a identidade. É o que Han chama de exploração de si mesmo.

Como estabelecer limites para a sociedade do cansaço

Saber dizer não ao excesso de estímulos, à hiperatividade disfarçada de eficiência e ao fluxo contínuo de informações inúteis talvez seja uma das formas mais maduras de crescimento.

Quem perde a habilidade de pausar, descansar, desligar-se das banalidades e resistir ao excesso de estímulos externos acaba se tornando carcereiro de si mesmo. E talvez seja justamente daí que comece a perda de identidade.

Talvez a verdadeira liberdade não esteja em produzir mais, aparecer mais ou provar mais, mas em recuperar o direito de existir sem precisar transformar a própria vida em espetáculo.

Em um tempo que nos ensina a confundir valor com desempenho, preservar a identidade é um ato de resistência: é lembrar que ninguém precisa estar o tempo todo no auge para continuar sendo inteiro.

Como afirmava Nietzsche, a vida humana empobrece quando expulsamos dela o viés contemplativo. Nesse sentido, a pergunta permanece: você está evoluindo ou apenas se adaptando ao que a sociedade do cansaço exige de você?

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