Livros de autoajuda

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Tenho lido uma infinidade de críticas em livros, jornais, revistas e na própria web a respeito da importância ou até mesmo da inutilidade da literatura de autoajuda. Há quem defenda e há quem critique. Há quem diga que nunca leu um livro de autoajuda mesmo sem saber do que se trata. Imagino que haja também pessoas que já leram inúmeros livros de autoajuda, mas juram de pés-juntos que nunca vão colocar um desses na cabeceira da cama.

Meu desafio aqui é demonstrar a utilidade dos livros enquadrados na literatura de autoajuda, algo que depende de vários fatores, dentre os quais cabe destacar: o gosto pela leitura, o meio onde você foi criado, a facilidade de acesso à leitura, a empatia com o tema apresentado no livro e, para muitos, a prioridade estabelecida quando se deve optar entre o pão de cada dia e o livro.

Em primeiro lugar, faz-se necessário esclarecer o significado da palavra. De acordo com o Aurélio, autoajuda é um método de aprimoramento pessoal em que o indivíduo pretende buscar, sem ajuda de outrem, soluções para problemas de ordem emocional, superação de dificuldades etc.

Em segundo lugar, tente imaginar alguém na face da Terra, incluindo Gisele Bündchen, Silvio Santos, Steve Jobs, Bill Gates, Michael Jordan, Barack Obama e Lula, dentre outras celebridades, que não tenha problemas de ordem emocional ou nunca necessite superar qualquer tipo de dificuldade.

Antes, porém, vale a pena resgatar um pedaço da história do livro. Há aproximadamente quinhentos anos, os bons homens da Idade Média eram, na realidade, legítimos bárbaros disfarçados de homens civilizados. Eles não sabiam absolutamente nada. Seu conhecimento era inferior ao de qualquer criança de oito ou dez anos nos dias de hoje e para adquiri-lo, eram obrigados a recorrer a um único livro: a Bíblia. Tudo o que o ser humano comum desejasse entender sobre astronomia, biologia, medicina, matemática, geometria e qualquer outra ciência deveria ser explicado, única e exclusivamente, à luz da interpretação da Bíblia.

De acordo com o historiador Hendrik Willem van Loon, Professor Emérito de Harvard e da Universidade de Munique, um segundo livro foi acrescentado à pobre biblioteca medieval, no século XII: a grande enciclopédia de conhecimentos úteis compilada por Aristóteles, filósofo grego do século IV antes de Cristo. Depois da Bíblia, Aristóteles foi reconhecido como o único mestre confiável cujas obras poderiam, sem dano, ser postas nas mãos dos verdadeiros cristãos, segundo o historiador.

Na Alemanha do século XV, cidade de Mainz, quando Johann Gutenberg inventou um novo método de copiar livros, o mundo inteiro tornou-se o público em potencial de todos aqueles que tinham algo para dizer. Apesar de ter perdido seu patrimônio numa disputa judicial que colocou em dúvida a autoria de sua invenção e de ter morrido na pobreza, Gutenberg consolidou o fim de uma época em que o estudo e a erudição eram monopólio de uns poucos privilegiados e a “expressão do seu gênio inventivo continuou viva depois dele.”

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Contudo, vez por outra, pessoas curiosas como Roger Bacon, Copérnico, Giordano Bruno, Galileu Galilei e, mais adiante, Charles Darwin, insinuavam teorias diferentes dos escritos da Bíblia ou dos ensinamentos de Aristóteles. Ao confrontar a Igreja, o sujeito era obrigado a se desculpar mediante uma comissão composta pelo Papa, o imperador, cardeais, bispos e arcebispos, além de abades e príncipes que se haviam reunido para defender as sagradas escrituras, sob pena de arder na fogueira e gemer de dor até a morte.

Quinhentos anos depois, o mundo tem à sua disposição milhares de livros escritos em todas as formas e idiomas passíveis de tradução. Não é necessário mais temer o homem de um livro só, como alertava Confúcio. Diariamente, surgem milhares de novos títulos, em diferentes línguas, para todos os gostos e idades. Isso é uma maravilha que não tem preço. Assim, é possível escolher à vontade a leitura que mais lhe convém e ignorar aquela com a qual você não tem a menor afinidade. Através da leitura e do aprendizado, conquistamos o livre arbítrio justamente para decisões dessa natureza.

Em geral, podemos concordar ou não com o conteúdo, mas o fato é que alguém teve a coragem de expressar as idéias no papel e dar a cara para bater. E idéias são assim, surgem de todos os lados. Cada um lhes dá o destino que julgar apropriado. Concordo que existem livros de conteúdo sofrível e qualidade duvidosa, mas somente o livre arbítrio e o bom-senso nos livrarão da leitura indesejada, quer de livros impressos, quer de conteúdo de qualidade e origem mais duvidosa ainda, postado em milhares de sites e blogs na Internet.

Eu mesmo já tive um livro classificado como literatura de autoajuda embora não tenha sido escrito com esta finalidade. Isso me incomodou por algum tempo, mas não passou de uma grande bobagem. O fato não torna um livro menos ou mais valioso do que ele é. O que faz um livro bom ou ruim é a mensagem nele contida e o ser humano que existe na pele de quem o escreveu.

Dizer que você nunca leu ou nunca vai ler um livro de autoajuda pode ser enganoso. De uma forma ou de outra, todos são considerados de autoajuda, principalmente quando nos fazem pensar e agir de maneira diferente da de quando iniciamos a leitura. O que mais se busca no livro é a reflexão, o autoconhecimento, o pensar diferente, o encurtamento do aprendizado.

Quando leio a respeito de tudo o que ocorreu na história, sou grato pelo quanto já evoluímos e penso muito sobre o que ainda pode ser feito com base no conhecimento alheio. O livro é puro conhecimento alheio aplicado. Não importa se é livro de autoajuda, técnico ou de ficção. Alguém se predispôs a pensar, organizar as idéias e compartilhar a sua versão dos acontecimentos.

Faz muito tempo que eu me tornei um leitor voraz, quase compulsivo, em razão da minha paixão pelos livros. Penso ser a leitura uma boa maneira de olhar o mundo sob uma perspectiva diferente daquela que nos foi empurrada goela abaixo nas escolas. Não importa o autor e o tema. No meu caso, já fui de Homero a J. K. Rowling, de Aristóteles a Shinyashiki. Todos têm o seu valor. Ler livros é querer o bem de si mesmo. Dar livros de presente é querer o bem dos outros. Publicar livros é colecionar emoções indescritíveis pelo resto da vida.

Para consolidar o pensamento, deixe-me resgatar alguns versos do poeta satírico espanhol Marcial, nascido no ano 40 da nossa era. Pelo fato de ter vivido uma vida livre, a serviço dos poderosos, Marcial foi um cronista social muito combatido e perseguido no seu tempo. Um pequeno trecho da sua obra continua atual e foi escrito em rebate às críticas de um contemporâneo: “Você não publica teus versos, Lélius, mas critica os meus; põe fim às tuas críticas, ou publica os teus.

Pense nisso, leia muito e seja feliz!

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