Compensação e Equilíbrio

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Como o leitor já deve ter percebido, sou um profundo admirador da filosofia de Ralph Waldo Emerson, ensaísta e poeta norte-americano do Século 19, autor de magníficos livros, dentre eles Ensaios e Homens Representativos. É comum citá-lo nos meus artigos e livros.

Com base na literatura de Emerson, tomei a liberdade de escrever esse artigo cujo título é, para mim, o seu ensaio mais instigante e mais completo. Não tenho a mínima pretensão de me comparar a ele, pois ainda me faltam virtudes que somente o tempo haverá de conceber: experiência e mais amor à escrita.

A lei da compensação é uma das mais antigas do universo. Tudo gira em torno do equilíbrio e do desequilíbrio considerando que o mundo é dual em todos os sentidos. Assim é com o ser humano, assim é com a natureza. Noite e dia, preto e branco, claro e escuro, forte e fraco, sístole e diástole, homem e mulher, fluxo e refluxo, guerra e paz, amor e ódio, vida e morte, ofensa e perdão, contra e a favor, bom e mau, quente e frio, doce e amargo, virtude e defeito, verso e reverso e assim por diante. Polaridade, ação e reação, ponto e contraponto estão presentes em todas as forças da natureza.

A dualidade existe para compensar os desequilíbrios, muitas vezes contra nossa vontade, ainda que isso custe um tempo maior do que se pode esperar na face da Terra. O político corrupto, o bandido da pior espécie e o mais simples dos estelionatários tem suas vidas reguladas pelo desprezo, solidão e desconfiança dos seus entes mais queridos. Por outro lado, o mais rico, o mais abastado e o mais favorecido pela natureza, em algum sentido, tem a liberdade privada e a segurança ameaçada.

Napoleão escreveu seu nome na história, porém passou os anos mais sábios de sua vida privado de sua gente e de sua liberdade. Alexandre Magno viajou mais de 16 mil quilômetros em busca de novas terras e novos reinados e nunca mais voltou para casa. Adolf Hitler reunificou a Alemanha à custa de muitas vidas, mas acabou se suicidando para não ser condenado e execrado pelos inimigos. Benito Mussolini semeou o pânico fascista na Itália e em parte da Europa, mas não escapou à execução sumária e exibição do seu corpo em praça pública, de cabeça para baixo. Idi Amim, ditador de Uganda, foi banido do poder e viveu seus últimos dias esquecido na Arábia Saudita, depois de sacrificar mais de trezentas mil vidas.

Nas palavras de Emerson, “cada excesso causa um defeito e cada defeito um excesso, cada doce tem seu amargo, cada mal tem o seu bem e para cada coisa perdida há algo ganho; a natureza odeia monopólios e exceções.” Assim, não há mal que sempre dure nem há bem que, de alguma forma, não seja perturbado pela ganância, inveja e orgulho ferido. Se, por um lado, o orgulho lhe é prejudicial, por outro, o defeito pode ser de algum modo útil. O que se ganha em músculo, perde-se em inteligência. O cientista que conquista todos os prêmios não escapa ao mais profundo isolamento, segundo Albert Einstein.

Os tempos pós-modernos em que vivemos são testemunhas incondicionais do equilíbrio e do desequilíbrio provocado pela lei da compensação. Dominamos a tecnologia desequilibrando a natureza; avançamos na ciência e não conseguimos eliminar a fome do mundo; conquistamos o espaço e regredimos no entendimento entre os povos; o excesso de gente e o excesso de facilidades tecnológicas são os nossos maiores algozes. Ajudam e ao mesmo tempo escravizam, provocam desarranjos, incitam a violência e a desunião.

Tudo que o homem produz para o bem acaba sendo utilizado, de alguma forma, para o mal. A energia nuclear promove grandes avanços na medicina, mas é utilizada para a construção de bombas atômicas. Os telefones celulares facilitam a comunicação e ao mesmo tempo se transformam em armas poderosas nas mãos de traficantes e seqüestradores. Se, por um lado, a Internet provou ser um excelente instrumento de disseminação da informação e do conhecimento, por outro, provoca injúria, críticas descabidas, ódio e discriminação.

Em suma, a natureza está decididamente preparada para aplicar a lei da compensação. Nada pode ser alterado sem a respectiva contrapartida. Os fracos são favorecidos até mesmo pelos defeitos. Os fortes são prejudicados até mesmo pelas virtudes. Quem ama o feio, bonito lhe parece, diz o velho ditado. Em todas as formas de vida e relacionamento, as compensações são inequívocas na arte de restabelecer o equilíbrio natural das coisas.

Todos os presidentes pagam caro pela conquista do poder e as estrelas do cinema e da música deixam de ser livres ao atingir o auge da fama. A ausência de esforço e de conhecimento nunca será reconhecida pela sociedade competitiva em que vivemos ao passo que o excesso de esforço poderá ser pago com saúde e, muitas vezes, com vida. O excesso de conhecimento tende a escravizar quem o domina, pelo fato de saber tudo e ao mesmo tempo não poder fazer nada.

Assim é o mundo, assim é a vida, razão pela qual o papel que nos cabe é a busca constante do equilíbrio. Salvo melhor juízo, pouquíssimas pessoas estão dispostas a conquistá-lo por conta de um futuro melhor para si mesmo e para seus filhos e netos.

“Deixa a vida me levar” é um péssimo conselho para quem deseja contribuir para um mundo melhor e viver uma vida mais alegre, mais humana e mais saudável. O que provoca desequilíbrio tende a ser compensado, de alguma forma, pela lei da compensação. Essa lei universal não pode ser contestada nem por mim nem por você nem pelo mais poderoso dos mortais.

Pense nisso e seja bem mais feliz!

 

Referência Bibliográfica:

EMERSON, Ralph Waldo. Ensaios. São Paulo, Martins Claret, 2003.

 

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