Tudo vale a pena

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Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Escolhi esses versos do poema Mar Português, de autoria do grande poeta Fernando Pessoa, para iniciar esse artigo considerando a profundidade do seu significado e a importância dessa simples afirmação na vida do mais humilde ser humano.

 Antes eu quero compartilhar uma pequena história contigo. Há algum tempo, quando eu trabalhava no centro de Curitiba, era necessário deixar o carro no estacionamento, distante uns duzentos metros do escritório onde eu passava o dia resolvendo os problemas da empresa e, principalmente, dos clientes. Quando você coloca a vida profissional acima de tudo, os problemas particulares geralmente são relegados ao segundo plano, mas isso é outra história.

Durante o trajeto, dia sim dia não, eu encontrava Dona Margarida, a mulher gari mais simpática e educada que eu conheci na vida. No primeiro instante, a julgar pela sua aparência rude e humilde, não era difícil prejulgar que ela fosse uma dessas pessoas que tinham tudo para ficar de mal com a vida, porém o brilho no olhar era a sua marca registrada. Diante de tanta simpatia e da sua perspicácia, não havia como seguir adiante sem trocar algumas palavras com aquela senhora que, independentemente da sua história e da profissão, sabia cativar as pessoas.

Dona Margarida foi abandonada pelo marido, tinha quatro filhos, dos quais dois moravam contigo, e sete netos que ela ajudava a sustentar com os seus míseros vencimentos de gari, algo em torno de um salário mínimo e meio. Apesar do dia extenuante de trabalho, das mínimas perspectivas de crescimento na empresa, algo com o qual ela não se preocupava e, se me lembro bem, de apenas uns sete ou oito dentes à mostra, ela cursava o segundo grau numa escola pública à noite, um verdadeiro ato de heroísmo para uma mulher na sua condição.

Nos fins-de-semana Dona Margarida passava parte do tempo fazendo pães e bolos para vender e arrecadar mais alguns trocados com intuito de ajudar os filhos e alimentar os netos. Isso ela contava com orgulho e lágrimas nos olhos, mas com a plena convicção de estar cumprindo com a sua missão de ajudá-los a viver felizes e bem encaminhados na vida.

De fato, quatro anos se foram no mesmo local e não me lembro de ter encontrado aquela mulher ensimesmada, desanimada ou reclamando da vida. Ao contrário, eu torcia para encontrá-la no caminho, pois ela era a alegria em pessoa, gostava de poesia e tinha sempre uma na cabeça. Na época eu estava no auge da minha produção poética e isso nos aproximou de alguma forma. Nossa pauta de reunião era Drummond, Castro Alves, Fernando Pessoa e coisas do gênero.

Tempos depois, quando a empresa decidiu mudar de endereço, uma das coisas que me deixaram chateado foi o fato de ter perdido a companhia matinal da Dona Margarida, uma profissional que me ensinou muito mais do que alguns livros e horas de aula na Faculdade. Ela me fez ver o lado bom da vida, pois era inevitável a comparação da minha profissão, da minha condição de vida e do meu local de trabalho com o dela. Depois de cinco ou dez minutos de bate-papo, seria muita intransigência de minha parte a mais simples reclamação.

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Numa das últimas conversas que tivemos, ela discorreu alegremente sobre Fernando Pessoa e declamou o seu poema mais conhecido. Aquilo me marcou tanto que não sosseguei enquanto não aprendi o poema de cor e salteado, como se dizia no passado. E toda vez que a tristeza toca meus ombros, eu me lembro de Dona Margarida dizendo “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

Diariamente, milhares de pessoas cruzam o nosso caminho com desejos parecidos: ganhar dinheiro, sobreviver, pagar as contas, sustentar a família, subir na vida, conseguir emprego, ter sucesso. Algumas querem mais, outras querem menos, algumas se contentam com pouco, outras não se contentam nem com muito. Desejos não significam necessariamente dinheiro, mas reconhecimento, valorização e um pouco de orgulho próprio.

Do alto da sua simplicidade, Dona Margarida deixou uma grande lição que tem norteado a minha conduta sempre que eu me sinto tomado pela ansiedade e me vejo descrente em relação aos meus objetivos: “existem muitas coisas sem as quais eu posso viver tranquilamente e minha alegria está diretamente relacionada ao meu estado de espírito”.

O fato de você ter ou não ter carro do ano, ser ou não uma pessoa de sucesso, ter ou não um cargo de alto nível, viver ou não numa mansão confortável, não faz de você melhor ou pior do que a mais simples criatura na face da Terra. Lamentavelmente, somos medidos pela quantidade de bens que possuímos e não pela quantidade de bem que praticamos. Isso nos leva a prejulgar e rotular pessoas menos favorecidas pela sociedade ou de cargos menos importantes, segundo a nossa própria escala de valores.

Da minha feliz e rápida convivência com Dona Margarida, além da lição principal, sobraram ainda algumas reflexões que considero úteis na vida pessoal e profissional, razão pela qual tomei a liberdade de dividi-la com vocês:

As pessoas que cruzam o nosso caminho, independentemente da origem, cor, sexo, religião, escolaridade ou saldo bancário, sempre tem algo a nos ensinar desde sejamos abertos aos pontos de vista alheios em vez de discutirmos o todo tempo para fazer valer somente aquilo que pensamos ser correto;

A liberdade de idéias, opiniões e pensamentos é o maior patrimônio que alguém pode desejar. Sem isso valemos muito pouco, entretanto, o respeito aos pontos de vista alheios e a troca de idéias é que nos faz dignos de perceber a diferença entre pessoas pobres e pessoas ricas de espírito;

Tudo na vida vale a pena quando você tem a plena convicção de estar cumprindo a sua missão. E sua missão nada mais é do que doar-se por inteiro onde quer que você esteja, em qualquer atividade que você realize, em qualquer projeto que você tenha abraçado com o coração e a certeza de estar contribuindo para tornar o mundo melhor.

Eu daria tudo para encontrar a Dona Margarida novamente. Falo “dona” em sinal de respeito, pois imagino que ela devia ter mais de cinqüenta anos na época e, apesar das adversidades, conseguia manter o sorriso nos lábios. Acredito que a sabedoria divina lhe reservou melhores dias. Ela era dotada de todos os ingredientes necessários para fazer a vida valer a pena: determinação, otimismo e um amplo sentido de contribuição, sem contar o brilho inconfundível nos olhos.

O que para muitos parece uma simples varredura, para outros é a única oportunidade de mostrar que a vida pode ser vivida de maneira simples, porém intensa. As palavras de Stephen King, escritor norte-americano, encerram a nossa lição de hoje: “O talento é mais barato do que um saleiro. O que separa uma pessoa talentosa de uma bem-sucedida é o trabalho”.

Pense nisso e seja feliz!

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