Religião e consumo

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Ontem fui à tradicional missa de domingo, por uma questão de tradição, cultura, princípios, valores e também por acreditar que a vida vai além da grande confusão terrena em que nos encontramos. Desde que me conheço por gente é assim. Está dentro de mim. É o mínimo que posso fazer para agradecer à vida que tem me dado tanto. Religião é algo delicado, cada um com a sua, desde que uma respeite a individualidade da outra.

Existem assuntos indiscutíveis quando os pontos de vista são diferentes e muitas vezes nem são nossos, herdamos dos nossos pais, morremos com eles e não questionamos. Seguimos o coração, isso é o que vale. Felizmente, consigo conviver com diferentes ângulos de visão. Isso me consome e ao mesmo tempo me ajuda. Queria mudar o mundo, mas duvido que mude nos próximos mil anos, entretanto, nunca procurei a felicidade por outros caminhos porque, na minha modesta opinião, ela não está na religião, mas dentro de mim mesmo.

consumo

Antes de ir para a igreja dei uma passada no shopping. Fui almoçar com a família e aproveitei para encher os olhos e a cabeça de bobagens, afinal, muito do que não precisamos está no shopping. Como diria Sócrates, o grande filósofo da Grécia Antiga, ao caminhar por uma feira de produtos, especiarias e supérfluos, “quantas coisas sem as quais posso viver tranquilamente”.

Era véspera do dia da criança e o shopping estava apinhado de pai e mãe em polvorosa para escolher o presentes dos filhos. Agora é assim, filhos querem o presente na hora, ao vivo e a cores. Esqueça a surpresa. Surpresa é não mais fazer surpresa. O que os filhos não querem mesmo é saber do preço, isso é problema dos pais. Tinha gente saindo pelo ladrão, como se diz na gíria, apesar de a metade da cidade ter viajado.

Ao contrário do shopping, a igreja estava relativamente vazia. Eu, minha família e não mais do que cinquenta fiéis éramos os únicos entretidos com a mensagem do dia. Pura contradição, mas não há como não lembrar do shopping. Temos paciência enorme para enfrentar filas de todos os tipos e tamanhos para consumir, gastar, comprometer o salário todo, se necessário. Temos pouco tempo e paciência para a religiosidade, algo para se pensar.

Segundo Frei Beto, escritor e pensador do nosso tempo, o shopping é o novo templo do povo. A religião está perdendo de 100 a 0 para o consumo, o cartão de crédito, os celulares, os televisores, os vídeogames e os computadores com suas prestações a perder de vista. Do outro lado da cidade, um grande amigo meu faz campanha e tenta desesperadamente sensibilizar algumas cabeças para a compra de bolos e refrigerantes que ainda faltam para a festa das crianças de um bairro pobre, sem sucesso. É tudo muito contraditório.

Ao meu lado, no shopping, uma senhora elegante, entornada de jóias e acessórios, faz questão de pronunciar ao filho, de uns 4 ou 5 anos talvez, para que todos ouçam: mamãe não vai gastar mais do que R$ 500,00 com você, entendeu bem? Caramba! Olhei espantado, será que ouvi direito? E o filho continuou batendo o pé, chorando copiosamente, como quem diz: R$ 500,00 é pouco, se vira ou grito mais ainda.

Na missa, chega a hora do ofertório e o que mais se ouve é o tilintar de moedas e mais moedas caindo. Torço para que seja pelo menos de um real, mas tenho minhas dúvidas. Depois daquela cena no shopping não imagino que alguém tenha coragem de ofertar apenas dez centavos. Melhor do que dez centavos é ficar no banco e não doar nada.

O que tudo isso tem a ver com você? Agradeça todos os dias pelo fato de você existir e não deixe e fazer a parte que lhe cabe. A vida é muito mais do que gastar dinheiro no shopping e o que fazemos é muito pouco. Ganhar dinheiro é bom e gastá-lo é melhor ainda, entretanto, penso que nunca seremos felizes premiando exclusivamente a nossa individualidade e os nossos interesses pessoais.

A religião aqui é apenas uma referência e não um imperativo. Não tenho a pretensão de converter o mundo nem imagino que ele precise ser convertido. Fico apenas chocado com a inversão de valores, a mudança de prioridades e o culto ao consumo desenfreado. Alias, tenho bons amigos que fazem trabalhos sociais invejáveis e são ateus convictos, mas nem por isso deixam de ser meus amigos.

 Pense nisso e seja feliz!

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