Propaganda Enganosa

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Há pouco tempo eu escrevi sobre esse assunto e confesso que de lá para cá minha percepção nada mudou sobre o atendimento prestado no comércio em geral, a despeito dos investimentos e políticas de treinamento desenvolvidas pelas empresas para melhorar o desempenho dos seus colaboradores.

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Dia desses convidei minha esposa e meu filho mais velho para saborear uma pizza num estabelecimento perto de casa a fim de descontrairmos um pouco e, obviamente, nos livrarmos da louça do jantar que sempre sobra para os homens no fim-de-semana, por uma justa razão.

Jantar fora é uma maravilha, exceto quando nos apresentam o valor da conta, pois é quando a gente se dá conta de que o trabalho da esposa deveria ser triplamente recompensado se comparado ao preço que pagamos em qualquer restaurante, além de ser feito com muito mais carinho do que aquele prestado por funcionários mal-humorados que insistem em trabalhar com o público.

Logo sentamos à mesa e fomos atendidos rapidamente pela única garçonete disponível no local, cheia de dentes à mostra, pronta para sacar o nosso dinheiro na primeira pizza tamanho master que a gente pedisse. Como a decisão em família é um pouco mais lenta, fiz sinal para que aguardasse.

Diante da infinidade de opções disponíveis no cardápio e considerando as dificuldades de se chegar a um consenso familiar – um quer frango, outro quer romana, ninguém quer aliche, todo mundo quer palmito –, procurei me concentrar na imagem da pizza estampada na capa do cardápio que parecia dar água na boca só de olhar para o conjunto de recheio sobre aquela massa suculenta.

De olho na pizza, discutimos rapidamente sobre a possibilidade de pedir aquela mesmo, pois estávamos com o estômago nas costas e, a julgar pelo colorido da foto, não era preciso pedir outra. Mediante um sinal discreto chamei a garçonete outra vez, a qual compareceu sem titubear, disposta a realizar o primeiro pedido do dia, creio eu, com tanto sorriso nos lábios. Até aí tudo bem.

Com um simples olhar de aprovação familiar realizei a sondagem inicial: – escuta, menina, essa pizza aqui da foto, bonita e suculenta, é isso tudo mesmo? Você recomenda?

Naturalmente, eu esperava uma resposta assertiva, mas para surpresa geral a garçonete olhou para o balcão a fim de checar se não estava sendo observada e em seguida se aproximou ainda mais da nossa mesa como se quisesse dizer ao pé-do-ouvido “não conta prá ninguém, mas vou dizer a verdade”. Tomada de cuidados, disparou sem o mínimo constrangimento: – não quero dizer nada, não, mas isso aí é propaganda enganosa, não é isso tudo!

Caramba! Juro por tudo que é mais sagrado, quase caí duro no chão. Olhei para o meu filho e para minha esposa pensando se chamava o gerente, se levantava e procurava outro local ou se voltava para casa. Contudo, a fome gritou mais alto e decidimos pedir a preferida da família – palmito, presunto e queijo – para evitar conflitos depois de um comentário tão ordinário quanto aquele que quase nos roubou o apetite.

De acordo com o Relatório Fatores Condicionantes de Mortalidade das Empresas, divulgado pelo SEBRAE em 2004, praticamente 60% das micro, pequenas e médias empresas constituídas no Brasil não sobrevive ao quarto de ano de vida, por inúmeras razões, dentre as quais pode-se destacar: falta de planejamento, capital de giro, concorrência desleal e até mesmo falta de clientes.

Felizmente, ainda não encontrei um levantamento pormenorizado que inclua o péssimo atendimento e a deslealdade dos colaboradores como fator preponderante no desempenho ou no fechamento das empresas. Entretanto, desconheço, no meu círculo de relacionamentos, alguém que não tenha sido vítima do descaso alheio. Essa constatação me basta.

O sucesso de um empreendimento envolve uma série de questões que devem ser minuciosamente estudadas e planejadas, dentre elas o treinamento e a importância das pessoas na organização. Estratégia é importante, fluxo de caixa também, mas a dependência da boa vontade das pessoas requer atenção redobrada para evitar o apunhalamento voluntário e desleal por parte daqueles que deveriam cumprir o dever com o mínimo de respeito e consideração perante aquele que lhe provê o sustento.

Ninguém é obrigado a trabalhar em lugar algum se a atividade, por mais simples que possa parecer, não lhe provocar o mínimo de entusiasmo. O mundo dos negócios está repleto de vendedores desanimados, atendentes mal-educados, “caixas” mal-humorados e outros profissionais despreparados cuja maior satisfação é despejar a própria insatisfação sobre as pessoas que nada tem a ver com o problema.

Se você optar por ser um empreendedor ou exercer uma posição de liderança, lembre-se de uma verdade universal no mundo dos negócios: pessoas que não gostam do que fazem, dificilmente levarão o trabalho a sério. Portanto, ao contratá-las, seja simples, honesto e direto: enfatize a importância do trabalho a ser realizado; esclareça suas expectativas em relação ao desempenho das pessoas; dê-lhes treinamento e lhes deposite confiança; monitore o desempenho. E se tudo isso for em vão, livre-se dos ineficientes.

Tenha em mente que não é necessário esperar um, dois ou três anos para saber se um profissional é capaz de realizar o trabalho de acordo com as expectativas e as necessidades da empresa. As organizações levam anos para descobrir as fontes de ineficiência das pessoas e, por conta disso, alimentam uma triste ilusão corporativa que encerra com algo parecido como “você não tem perfil para trabalhar aqui”.

Por experiência própria, penso que de três a seis meses é mais do que suficiente para conhecer o profissional contratado, portanto, se o resultado não for o esperado, não alimente expectativas desnecessárias nem prorrogue o sofrimento para ambos os lados. Seja firme, justo e elimine o problema antes de se aborrecer, falir ou ser demitido por conta da incompetência alheia.

Propaganda enganosa é também vender uma imagem no currículo ou na entrevista e, depois de contratado, agir completamente diferente. Aliás, mais do que propaganda enganosa, esse comportamento soa falta de integridade.

 Pense nisso e seja bem mais feliz!

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