Preguiça e covardia

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De acordo com Immanuel Kant, filósofo alemão, em artigo publicado em 1784, “a preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha, continuem, no entanto de bom grado menores durante toda a vida”. De maneira mais simples, significa dizer que, tendo o homem se libertado da ignorância, ainda é capaz de nela permanecer apenas por comodidade, preguiça e covardia, o que o torna menor ainda pelo fato de ter experimentado o conhecimento e ter decidido permanecer na escuridão da ignorância.

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Preguiça e covardia lhe parecem muito agressivos? Kant vai mais longe quando afirma que o homem é a única criatura que precisa ser verdadeiramente educada. Por que preguiça e covardia? Exatamente porque pensar por si mesmo é um exercício que exige muito esforço e completo desprendimento dos pensamentos alheios, um sacrifício que poucos estão dispostos a realizar.

Para que pensar, diriam os ignorantes no sentido literal, se os grandes pensadores fazem isso por nós? Filosofia não oferece conforto, dinheiro, bens materiais nem favorece o aparecimento na mídia. Talvez por essa razão a maioria dos homens prefira seguir refém dos pensamentos alheios, das frases prontas, dos governantes egoístas que se valem da ignorância coletiva para manipular a ordem do judiciário, do legislativo e do próprio executivo, em benefício de uma minoria que se encanta com poder, microfones, palcos, viagens e multidões.

A ignorância faz com que o homem cultive valores equivocados, entregue sua vida e sua alma para seitas e religiões sem o menor fundamento, cultue hábitos estranhos de vida e admire heróis fabricados da noite para o dia. Pior ainda, pode torná-lo refém da ignorância alheia, representada por políticos inescrupulosos, profetas de araque, traficantes, bicheiros, estelionatários e outros agentes de desenvolvimento da escravidão humana que, há muito tempo, deixou de ser uma violência física assumir definitivamente a forma de violência moral.

Penso que há um tempo na vida, entre a infância e parte da vida adulta, que o empréstimo dos pensamentos alheios é quase um imperativo. Precisamos de heróis, filósofos, professores, mentores e pensadores que fundamentem a formação da nossa base moral e intelectual. E por um bom tempo ainda, o homem será refém da aprovação alheia, afinal, perfeição e unanimidade são características difíceis de serem alcançadas nem devem ser almejadas para o nosso próprio bem e para o bem da humanidade.

A pós-modernidade facilitou o acesso à informação, mas não promoveu o conhecimento e a sabedoria. De posse do conhecimento, o mundo se abriria para infinitas possibilidades. Como afirmavam os iluministas, somente o conhecimento liberta. Em suma, temos muita informação e pouco conhecimento e quando isso ocorre, não há questionamento, ao contrário, há o fortalecimento da passividade em relação aos desmandos de qualquer natureza e à hipocrisia que amplia ainda mais o abismo entre a ignorância coletiva e a sabedoria.

De fato, nunca fomos tão passivos em relação aos acontecimentos que nos provocam dor e indignação, algo que, em outros tempos, seria motivo de luta, revolução, renúncia, passeatas nas ruas e caras pintadas. Ter conhecimento é bem diferente de possuir informação. O conhecimento liberta, o excesso de informação escraviza. De nada adianta a informação se não sabemos o que fazer com ela. E o que é mais triste, quando sabemos o que fazer, nos entregamos aos encantos das promessas não cumpridas, dos sorrisos dissimulados, das mentiras bem produzidas.

Lamentavelmente, com relação ao Brasil, vivemos numa sociedade que aprendeu a se contentar com o óbvio, altamente influenciada pelos discursos evasivos dos políticos, por bobagens que se multiplicam em progressão geométrica na Internet, dependente da comiseração alheia. Por conta disso, a mente humana acaba poluída pelo excesso de propagandas sobrecarregadas de corpos, caras e bocas bem ornamentados e bem remunerados pela mídia que desembolsa milhões para tomar de assalto a nossa mente e abrir o nosso bolso, predominantemente espelhada no conceito equivocado de que ter é mais importante do que ser.

Assim sendo, não acredite em tudo que você vê, ouve ou lê nem mesmo que seja meu. Questione a tudo e a todos, inclusive a si mesmo. Quanto mais você questiona, menos escravo se torna dos pensamentos alheios. Pensar por si mesmo e aprender a discernir são as maiores armas que o ser humano pode utilizar contra todos os tipos de dominação social.

Por fim, penso que preguiça e covardia são características dos fracos de espírito, portanto, espelhe-se nos pensamentos alheios para construir o seu, mas nunca permita que eles o influenciem a ponto de fazê-lo perder a sua própria identidade. De acordo com William James, psicólogo norte-americano, “a maior revolução da nossa geração é a descoberta de que os seres humanos, ao mudar suas atitudes mentais, podem mudar suas vidas.”

Pense nisso e seja feliz

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