Pragmático ou antipático

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Embora o bom atendimento seja um direito universal do consumidor, na prática a teoria é outra. Espero que, ao ler esse artigo, você possa distinguir a diferença entre bom atendimento, praticidade e pragmatismo e saiba valorizar um pouco mais a cordialidade do brasileiro.

Durante visita a uma das lojas da Best Buy, em San Francisco, ainda meio perdido diante de tantas parafernálias tecnológicas que vão levar alguns anos para chegar aqui, fui abordado inúmeras vezes por atendentes preocupados em saber se eu estava encontrando o que procurava. Até aí, tudo bem, mas com um pouco de aperto o ser humano mostra a sua verdadeira face.

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Depois de vasculhar a loja inteira e conseguir menos da metade do que procurava, decidi chamar alguém para me ajudar. Conversa vai, conversa vem e, diante das infinitas possibilidades, lá se foram alguns preciosos minutos do meu tempo já escasso.

Quando você vai para fora do país e se compromete a trazer uma lista de coisas para os amigos, pode saber que a ansiedade vai aumentar, principalmente se você não encontra tudo o que lhe pedem. Ainda tenho que aprender a lidar melhor com isso.

Acontece que o americano legítimo é pragmático ou prático, do ponto de vista do aproveitamento do tempo e comigo não seria muito diferente. Aliás, nesse sentido, não foi a minha primeira experiência. Depois, a gente ainda reclama do atendimento no Brasil.

Impaciente com a minha indecisão, que deve ter lhe custado segundos preciosos, o salesman disparou sem cerimônia: I have many things to do, and so, when you had decided something about it, please, call me. De imediato, eu fiquei chocado, afinal, não estou acostumado com tamanha sinceridade.

Se eu fosse levar essa chacoalhada a ferro e fogo, a tradução literal seria mais ou menos a seguinte: Por favor, eu tenho mais o que fazer, portanto, pare de tomar o meu tempo, decida primeiro e depois me chame, OK!

No Brasil, isso seria tomado como desrespeito e, se conheço um pouco algumas figuras da minha cidade, motivo de reclamação direta ao gerente. Com um pouco de escândalo, típico do brasileiro, o vendedor seria demitido. Mas isso também é uma questão de cultura, própria de cada país.

De fato, havia certa razão nisso e fazer escândalo, ainda mais quando você está longe do seu país de origem, só agravaria as coisas, portanto, nesse caso, o melhor era decidir e ir direto para o caixa. Nada melhor do que um bom cartão de crédito com limite alto, a linguagem mais entendida nos Estados Unidos.

O retorno não foi diferente. Depois de contratempos seguidos com a famigerada LAN Chile, decidimos jogar duro com a atendente e o supervisor da companhia aérea a fim de resolvermos o problema do cancelamento do vôo, afinal, já havíamos tomado um banho de avião e aeroporto na ida.

Por fim, conseguirmos o endosso do bilhete para outra companhia aérea. Enquanto a atendente tomava as devidas providencias, uma colega de equipe tentava negociar um lugar próximo à janela e o pragmatismo veio à tona outra vez:

– Senhora, uma coisa de cada vez. Primeiro eu acerto a passagem, depois vejo se há lugar na janela, como se uma fosse independente da outra. O problema não é a espera, mas a forma como fazem você esperar.

Talvez eu esteja ficando mais velho e mais sensível, mas com a idade, o aprendizado e a experiência, a tendência é a de que a gente vá tratando melhor as pessoas. Contudo, não dá para esperar o mesmo, senão você se frustra.

Por se tratar uma chilena (latina), esperávamos um comportamento mais caliente, mas a realidade é o que ela é e não o que você gostaria que fosse. Além do mais, ela já havia incorporado o espírito norteamericano por completo e, por essa razão, não faria diferente.

Pragmatismo é isso, tem a ver com a praticidade das coisas ainda que isso possa ser interpretado de maneira antipática dentro da sua cultura e do seu modo de ser, portanto, não há razão para frustrações. Cada país tem o seu jeito de ser e cada experiência tem a sua lição de vida.

Apesar de tudo, ainda é preferível tratar bem as pessoas, não importa a origem, a cor, a raça, o sexo e a religião. Ser pragmático, ou ser prático, não significa ignorá-las nem tratá-las como se fossem um incômodo, principalmente quando o seu ganha-pão depende delas.

Embora soe repetitivo, pessoas que não gostam do que fazem tendem a ser pragmáticos e ao mesmo tempo antipáticos. Ser gentil e simpático, mesmo sendo prático ou pragmático, é uma arte que não se aprende nas escolas. Isso vem do berço, da índole, do círculo familiar e pode fazer uma diferença considerável na sua vida.

Pense nisso e seja feliz!

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