O mundo assombrado pelos demônios

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on LinkedIn

Na última semana, dois acontecimentos relevantes chamaram a atenção da mídia e são dignos de reflexão. Outros dois foram coletados durante conversa com amigos e fazem a gente refletir sobre a complexidade na qual estamos todos envolvidos, porém ignoramos ou fazemos de conta que não existem.

O primeiro e o segundo dizem respeito à Procuradora Geral da República assassinada brutalmente pelo ex-marido em Nova Lima, Minas Gerais. Isso já seria suficiente para abalar a cidade, mas o ex-marido e empresário, provavelmente em estado de desespero, foi encontrado morto no dia seguinte, depois de cometer suicídio, segundo a polícia.

Em outro episódio, contado por uma amiga, a filha da vizinha tirou a própria vida aos treze anos de idade, através de um processo de autoflagelação, comportamento que se relaciona na psiquiatria com o transtorno do controle dos impulsos e o ato de castigar fisicamente a si mesmo.

No último caso, tão chocante quanto os demais, uma empresária me diz que, há exatamente um ano, perdeu o filho de dezenove anos, o qual se atirou pela janela do apartamento no nono andar, depois de entrar em estado de alucinação, provocado por ingestão de químicos em excesso.

Não cabe a mim explicar nem tentar entender tudo isso. Como diria o escritor Paulo Coelho, ninguém sabe da sua dor e da sua renúncia, entretanto, é possível extrair algumas lições de cada fato, considerando que precisamos seguir lutando, haja o que houver.

O ser humano é digno de tese, diria Nietszche, o que não explica, mas justifica toda a complexidade do mundo. Cada ser humano tem suas preocupações infundadas, neuras, medos, fantasias irreais, pequenos demônios cultivados pela falta de equilíbrio, de objetivo de vida ou ainda pelo isolamento voluntário.

demonios

Como diz o meu filho mais novo meio filósofo, apesar de ter apenas vinte anos, “o ser humano cria seus próprios demônios e depois não sabe como exorcizá-los”. Somos movidos muito mais pelo medo do que pela própria convicção em nossa capacidade de resolver os próprios problemas.

Na realidade, somos animais domesticados por religiões, culturas, famílias, empresas, organizações, escolas e exemplos alheios que, na maioria das vezes, não se aplicam às nossas necessidades mais profundas. A voz do ser humano sempre acaba sufocada pelas vozes alheias.

Cada pessoa tem uma personalidade “moldada a ferro e marteladas”, capaz de provocar espanto, admiração ou indignação. Quem poderia imaginar que um empresário bem-sucedido, o filho de uma empresária bem-sucedida e a filha de uma vizinha que frequenta sua casa todos os dias são capazes de cometer desatinos contra pessoas do seu próprio sangue e contra si mesmo?

O ditado é antigo, mas continua atual: a vida é o que você faz dela. No caso do empresário, não havia dignidade suficiente para enfrentar o julgamento da sociedade, portanto, ele preferiu antecipá-lo. O caso da empresária é um exemplo a ser seguido. O caso a fez intensificar ações de voluntariado e criar a sua própria fundação para recuperação de jovens carentes e moradores de rua.

O caso da menina “emo” é recente e somente o tempo haverá de curar a dor da família. É preciso estar muito fora de si e ser egoísta ao extremo para tirar a vida, brutalmente, de alguém ou de si mesmo. Tanto o assassino quanto o suicida resolvem o seu problema criando uma série de outros para quem fica.

Nas palavras de Carl Sagan, cientista norte-americano que popularizou a astronomia, o mundo vive assombrado pelos demônios, não necessariamente em seu estado físico, mas em espírito criado pelos próprios seres humanos. Livrar-se deles é bem mais difícil do que criá-los.

Demônios só existem nas mentes fragilizadas que se entregam facilmente à manipulação alheia, ao ócio não criativo e aos experimentos oriundos das mentes perturbadas e manipuladoras, disfarçadas de seitas, comunidades, religiões e tribos sem qualquer fundamento.

Já escrevi sobre isso, porém quero relembrar: a vida não é justa, mas é boa. Se a insatisfação geral prevalecesse, o mundo seria um lugar bem melhor para se viver, os políticos andariam na linha, as famílias seriam mais unidas e a prática do bem seria comum na face da Terra.

Há tanta coisa boa para se fazer no mundo e há tanta gente que precisa de ajuda, portanto, em vez de alimentar seus demônios, ocupe-se das coisas que possam evitar o surgimento deles. O privilégio de ser você mesmo e o de lutar pelo bem da humanidade não tem preço.

Pense nisso e seja feliz!

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on LinkedIn

Comente

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *