O lamento das coisas

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“Triste a escutar, pancada por pancada, a sucessividade dos segundos, ouço, em sons subterrâneos, do orbe oriundos, o choro da energia abandonada; é a dor da força desaproveitada, o cantochão dos dínamos profundos, que, podendo mover milhões de mundos, jazem ainda na estática do nada.”

Esses versos compõem os quartetos do primoroso soneto Lamento das Coisas, escrito pelo inconfundível poeta paraibano Augusto dos Anjos no início do século passado, uma obra-prima sem precedentes. Na primeira oportunidade que tiverem, leiam-no por inteiro e sentirão na alma o que eu digo.

Como admirador incondicional da sua obra, tomo a liberdade de recorrer ao poder de penetração quase enigmático do grande poeta para discorrer um pouco sobre os efeitos negativos provocados pelo simples lamento das coisas, sob um ponto de vista diferente, quando nossa postura acaba priorizando coisas e fatos que não agregam o mínimo valor ao nosso desenvolvimento pessoal e profissional.

O lamento constante está arraigado na natureza humana e deve-se, em parte, aos modelos mentais previamente estabelecidos em nossa mente desde a mais tenra infância. Segundo Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional, nossa biologia, cultura, experiência e história pessoal são determinantes em nossa formação moral e intelectual, portanto, na maneira de enfrentar as dificuldades e de julgar o mundo ao nosso redor.

lamento

Existem pessoas que vivem a maior parte da vida lamentando aquilo que não possuem e até mesmo aquilo que possuem em excesso. Acordam cedo, passam o dia e dormem se lamentando ao imaginar que o dia seguinte será novamente uma corrente de má sorte. Lamentam quando estão sem emprego e quando empregados lamentam o fato de não estarem no emprego correto. Lamentam quando o salário é baixo e quando ganham aumento continuam lamentando por não ser suficiente para as despesas. Reclamam quando o marido chega tarde do trabalho e quando chega cedo reclamam que não devia nem ter vindo. Reclamam quando a esposa não está bem arrumada e reclamam ainda mais quando o cartão de crédito registra um pequeno investimento no salão de beleza. Lamentam quando os filhos estão em casa fazendo bagunça e choram quando os filhos vão embora. Lamentam pelo carro que ainda não compraram, a casa que ainda não moram, os filhos que não existem, os cargos que ainda não conseguiram, o chefe maravilhoso que ainda não nasceu. O mundo é para elas uma fonte inesgotável de problemas.

Para muitas pessoas, o lamento, a reclamação, o pessimismo, a inveja e, consequentemente, o pré-julgamento, são um mal necessário. Em sua pobreza de espírito, ótimos locais de trabalho, excelentes salários, roupas de grife, natureza, carros, clubes, teatros ou mesmo uma bela mansão nunca serão suficientes para aplacar o mal que elas insistem em alimentar dentro de si. Realmente, o mundo não é tão fácil quanto poderia ser, porém fica mais difícil mediante a facilidade humana para tornar as coisas simples por vezes complexas.

Levantar cedo todos os dias mal-humorado, triste ou desanimado da vida é mais fácil, afinal, reclamar, invejar, julgar, falar mal dos outros, aparentemente, não requer muito esforço. Ao contrário, o ser humano consegue fazê-lo com boa desenvoltura mesmo porque o faz quase que de maneira inconsciente. O meio em que vivemos e os amigos que escolhemos acabam apoiando o nosso pré-julgamento e este, por sua vez, transforma-se num hábito. Quantas vezes você já discordou de um julgamento emitido por um amigo sobre determinada pessoa ou circunstância? É preferível concordar a perder o amigo.

Difícil mesmo é levantar da cama, diariamente, pronto para uma jornada de felicidade, de produtividade, de otimismo, de boas ações, independentemente da empresa que nos acolhe, do salário insuficiente, do chefe mal-humorado ou do colega de trabalho que vive puxando o nosso tapete. Nossas ações são geralmente contraditórias e nosso discurso não se consolida na prática. Estamos sempre nos apoiando em muletas que nunca mudarão a nossa forma de pensar e agir a menos que nos livremos delas definitivamente.

A vida é relativamente curta para ser desperdiçada e razoavelmente longa para ser bem aproveitada. Podemos realizar muito mais coisas em 30 ou 40 anos de otimismo e força de vontade do que em 80 ou 90 anos de pessimismo e lamentação. Que o lamento seja apenas a alavanca necessária para a reflexão e o crescimento pessoal e profissional, um sopro temporário nas idéias que, por vezes, se desarranjam, um passo derradeiro para trás na certeza de que o próximo será mais firme e promissor em direção aos nossos sonhos e realizações.

Pense nisso e seja feliz!

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