Nós, os Brasileiros

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on LinkedIn

Há pouco tempo recebi de um amigo um vídeo que retrata a suposta falta de consciência do povo mexicano em relação a tudo que ocorre naquele país, dos desmandos políticos à inércia de mudar os acontecimentos. Depois de repetir o vídeo por tantas vezes que até perdi a conta, fica difícil não associar a situação do México com a do Brasil. Se você mudar as personagens, a bandeira e o idioma usado no vídeo, a comparação torna-se inevitável.

O que pretendo discorrer a partir de agora é mais do que uma simples analogia. Trata-se de uma reflexão como pai e cidadão, matéria-prima importante de uma nação que se orgulha abrigar um povo hospitaleiro, trabalhador, livre de vulcões, tsunamis e terremotos. Entretanto, que ainda tolera a mediocridade, ignora a corrupção e considera quinze minutos de fama mais importantes do que aprender uma nova língua ou concluir um curso superior.

brasileiros

O problema é que o problema está sempre nos outros. Em qualquer lugar que você vá, existe uma crença de que nenhum governante serve. A monarquia, a ditadura e tampouco a democracia servirão. O último governante não serviu, o atual não serve e o próximo, provavelmente, não servirá. Vivemos num país que, apesar de todas as dificuldades, é muito mais amado e respeitado por um cidadão estrangeiro que, em seu país de origem, tem a alimentação racionada, a liberdade privada a esperança atrofiada.

Assim como no México e em outros países da América Latina, isso não deve ser motivo de orgulho. Devemos fazer uma profunda revisão de valores e de conduta como matéria-prima de um país que culpa os governantes e o mundo pelas dificuldades, mas não tem coragem para mudar os acontecimentos que lhe são extremamente prejudiciais. Portanto, assim como na maioria dos países latinos, vivemos num país onde:

Ser rico ou celebridade é uma virtude mais apreciada que se constituir uma família em longo prazo, baseado em valores, virtudes e respeito aos demais cidadãos;

Jornais e outros periódicos jamais serão vistos na rua, a exemplo de outros países, por apenas 1 dólar, sem a certeza de que a vitrine não será quebrada ou a de que o cidadão levará apenas o exemplar que lhe cabe;

Órgãos e cargos públicos são criados a bel-prazer, a cada eleição, para atender interesses exclusivamente particulares de políticos corruptos e inescrupulosos;

Empregados transformam a empresa em que trabalham em papelarias e lojas particulares ao levar escondido para casa, papel, cartuchos de impressão, peças, ferramentas, material de escritório em geral, como se fosse propriedade sua e a empresa tivesse a obrigação de fornecer;

Pessoas de todas as classes se sentem felizes e contam vantagem por fazer ligações elétricas, hidráulicas ou de TV a cabo, orgulhosamente clandestinas;

Cidadãos inventam recibos e arranjam notas fiscais falsas para burlar o Estado e pagar menos imposto de renda alegando que isso faz parte da cultura, do famigerado jeitinho brasileiro;

A impunidade é um hábito tão arraigado que políticos, governantes e executivos de empresas não geram nenhum capital humano, além de transitar livremente pelas ruas e calçadas respaldados por habeas corpus e leis tão ineficientes quanto a conduta de seus propositores;

Há pouco ou nenhum respeito pelo meio ambiente e as pessoas atiram lixo nas ruas, nos rios e nos terrenos baldios, porém reclamam dos governos que não tomam providências enquanto elas perdem tudo na enchente;

Existe pouca cultura pela leitura, pouca memória ou consciência política, pouco interesse pela economia e o que mais importa são as intrigas das novelas, as transferências dos jogadores para o futebol europeu e as bobagens do reality show;

Políticos arranjam mil desculpas para trabalhar cada vez menos, mas recebem como se trabalhassem o ano todo e são reeleitos mediante o infame discurso que alimenta a ilusão das massas;

Carteiras de habilitação, diplomas, monografias, dissertações e teses de doutorado podem ser compradas na rua sem qualquer exame de vestibular ou coisa que o valha, sem o menor constrangimento;

Políticos se acham no direito de não pagar multas, consideram normal dirigir com a carteira de habilitação vencida e ignoram por completo a legislação de trânsito;

Pessoas ocupam as vagas das gestantes e dos idosos no ônibus, nas filas de banco e nos estacionamentos e, quando alertados, fingem estar dormindo, se fazem de rogados e, por vezes, ameaçam quem lhes dirigir a palavra;

O povo tem o prazer de criticar o vizinho, os políticos, os governantes, os colegas de trabalho, os artistas de televisão, mas não tem a menor preocupação de mudar seus hábitos;

Todos se acham melhores que os políticos, mas continuam comprando produtos piratas (roupas de grife, cds, dvds); tentando encontrar um jeito de conseguir os resultados das provas em concursos; dedicando tempo para fraudar as contas bancárias na Internet; dando um jeito de não pagar as horas extras para os empregados; trabalhando apenas enquanto o patrão está na empresa.

De maneira geral, temos muitas coisas boas, somos um povo guerreiro, mas ainda falta muito para nos tornarmos homens e mulheres de que o Brasil tanto necessita. Talvez esses nossos defeitos, esse maldito jeitinho dos brasileiros, essa falta de impunidade, essa desonestidade congênita e a própria falta de qualidade dos nossos atos seja tão prejudicial quanto os maus exemplos que abominamos.

Não se trata apenas de eleger bons governantes, mas de aumentar a qualidade da matéria-prima defeituosa com que eles trabalham. Não temos nenhuma garantia de mudança porque, em vez de tomar o destino em nossas mãos, a exemplo dos japoneses, estamos sempre esperando que a próxima eleição possa resolver nossos problemas.

Assim sendo, enquanto não erradicarmos os vícios que temos como povo, nenhum governante poderá nos servir. Talvez precisemos mesmo de ditadores que nos façam cumprir a lei com a força e o medo, a exemplo do que ocorre na China, na Rússia e no Irã, entretanto, ser fiel à Constituição do Brasil e aos valores ensinados por nossos pais é menos penoso e mais do que suficiente.

Falta-nos algo mais inteligente do que armas, caças, bombas atômicas, porta-aviões, exército ou coisa que o valha, caso contrário, seguiremos igualmente condenados, estagnados, empobrecidos moralmente como nação. E não importa para onde você vá, Canadá, Europa, Estados Unidos, Austrália. Você sairá do Brasil, mas o Brasil não sairá de você. Se não mudarmos a forma de pensar, continuaremos escravos das mesmas mazelas e dos mesmos defeitos.

É muito bom ser brasileiro, ter orgulho das nossas empresas estatais, das nossas praias, da nossa diversidade, porém, enquanto não avaliarmos corretamente as nossas possibilidades de desenvolvimento como nação, qualquer governante com a mesma matéria-prima poderá ser nada.

Ficamos felizes com a conquista de um terceiro ou quarto lugar, duas medalhas na olimpíada, alguém que rouba, mas faz, bolsa-família e até mesmo um IDH ridículo porque simplesmente pensamos que existem outros piores do que nós. Admiramos os programas de televisão mergulhados na mediocridade, acalentamos o sonho dos filhos na passarela, nos reality shows e nos programas de auditório, mas não acalentamos sonhos na educação que pode nos livrar do jeitinho brasileiro, da desculpa esfarrapada e da estupidez.

Assim como no México, em vez de buscarmos novos mercados, mudar o comportamento e investir em educação, estamos esperando que a China, a Índia ou quem sabe o Chile nos arrasem como potencia mundial em menos de 20 ou 25 anos. Somos um povo rico que precisa livrar-se da pobreza em vez de cultuar o modelo americano, o alemão e o japonês sem ter a mínima noção de quanto tempo levou e quanto custou essa mudança para eles.

Por fim, assim como no México ou em qualquer outro país do mundo, não adianta buscar um responsável tampouco eleger um culpado. Ele não está na TV, no governo, nas empresas e na política em geral. Basta posicionar-se em frente ao espelho. Exija de você mesmo, todos os dias, a mudança que deseja ver no mundo.

Resista o quanto puder aos desmandos de qualquer natureza, ao ganho fácil, ao jeitinho brasileiro. Acredite piamente na educação e no resgate dos valores, princípios e virtudes. São as únicas instituições que poderão nos livrar da ignorância coletiva que assola a maioria das pessoas em nosso país.

Pense nisso, aja de maneira diferente e seja bem mais feliz!

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on LinkedIn

Comente

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *