Melhor idade?

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Inicialmente, quero pedir desculpas pela franqueza ou talvez rudeza das minhas palavras, mas aqui entre nós, esse negócio de “melhor idade” funciona bem mesmo para os profissionais do marketing, para as agências de viagem e, em último caso, para os asilos bem remunerados e geriatras. Penso que há muito pouco para ser comemorado a partir daquilo que os especialistas chamam de “melhor idade”. Se dependesse de mim, eu estacionava pelos 60 com a vitalidade dos 20 e a cabeça dos 40, mas, infelizmente, a natureza segue o seu curso.

Em geral, duvido que alguém deseje envelhecer por livre e espontânea vontade e, sinceramente, não me lembro de ninguém que tenha comemorado feliz e radiante a chegada dos 80, dos 70 ou mesmo dos 60 anos. Na verdade, os filhos promovem a festa para reunir os amigos e amenizar um pouco a tristeza do passar dos anos. Essa é uma condição imposta pela natureza a contragosto, entretanto, nosso maior consolo é o fato de estarmos todos na mesma condição.

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O conceito de “melhor idade” beira a hipocrisia. O sujeito que inventou esse nome devia ser um tremendo gozador. Leia e avalie por si mesmo se existe algo a seguir que possa ser associado à melhor idade: tendinite, bursite, labirintite, Alzheimer, Parkinson, dor na coluna, pés gelados, dentadura, asilo, previdência, farmácia, remédios, esquisitice, aposentadoria, catarata, invalidez, mau humor, impaciência, velhice. E a mais cruel de todas as doenças: a solidão. Você conhece alguém que deseja chegar mais rápido à “melhor idade”?

Por essas e outras razões talvez seja comum afirmar que alguém “partiu desta para melhor”. Na maioria dos casos, a “melhor idade” atinge também o mais alto nível de discriminação. Os filhos começam a ficar incomodados, as noras e os genros apoiam a busca da melhor “casa de repouso”, preferencialmente longe da cidade onde moram, os motoristas arrancam de forma violenta assim que você coloca o pé no primeiro degrau do ônibus, alguém se propõe gentilmente a receber o seu benefício no INSS e, por fim, a cabeça da “melhor idade” já não reúne forças para enfrentar os dissabores de uma sociedade seletiva e implacável.

Quantos anúncios de jornal você encontrou nos últimos tempos com a seguinte chamada: exclusivo para pessoas da melhor idade, ótima remuneração, excelente carteira de benefícios e nada de pressão? Isso não existe, portanto, se você não estiver no patamar dos profissionais altamente bem posicionados e dos que se prepararam física e financeiramente para a chegada da “melhor idade”, desejo muito que você tenha construído, pelo menos, uma boa base familiar.

A construção de uma família sólida e a formação de um excelente círculo de relacionamentos talvez possa amenizar a dor do envelhecimento. Melhor idade coisa nenhuma. Envelhecer com sabedoria deveria ser a nossa grande conquista a partir dos 40 anos, porém, infelizmente, isso ninguém ensina. Ao contrário, temos de correr desesperadamente atrás do prejuízo e, quase sempre, fazemos isso muito tarde, quando não temos mais tempo de reverter o processo de envelhecimento acelerado que a sociedade insiste em chamar de “melhor idade”.

Penso que nenhuma constituição do mundo será capaz de amenizar a dor do envelhecimento para a qual não estamos preparados, portanto, não espere que o governo resolva seu problema, que os filhos arrumem um cantinho para você na velhice ou que a sociedade se compadeça da sua dor. As pessoas são, por natureza, seletivas, competitivas, discriminadoras e, potencialmente, influenciadas pelos pensamentos alheios. E durante a melhor fase da nossa existência acreditamos que a velhice é problema dos velhos e que o nosso tempo ainda está longe.

Melhor idade, meu amigo, é aquela que nós desperdiçamos no passado com coisas banais, discussões infrutíferas, relacionamentos infelizes, ausências prolongadas e distanciamento dos amigos, cujo tempo perdido não podemos mais recuperar. Melhor idade é aquela que o tempo não apaga e que, por alguma razão, deixamos de aproveitar tão bem quanto deveríamos. Melhor idade é o único tempo pelo qual haveremos de morrer sentindo saudades.

Portanto, prepare-se o melhor que puder para uma velhice saudável, cultive o dom do relacionamento, aproxime-se cada vez mais dos seus amigos, respeite seus filhos, colegas de trabalho, vizinhos e conhecidos ainda que estes não demonstrem a menor reciprocidade. Quanto maior o seu nível de compreensão e de tolerância com as esquisitices alheias, maior a aceitação da sua personalidade na “melhor idade”. E como diria um grande amigo meu, “cuidar dos mais velhos é investir no futuro”.

Pense nisso e seja feliz!

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