A ilusão das massas

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De acordo com o médico e sociólogo francês, Gustave Le Bon, autor do magnífico ensaio intitulado Psicologia das Multidões, “O homem é naturalmente imitativo, semelhante aos animais. A imitação constitui para ele uma necessidade, contanto que essa imitação seja fácil; dessa necessidade nasce a influência da moda. Quer se trate de opiniões, ideias, manifestações literárias ou simplesmente de costumes, quantos ousam se subtrair ao seu domínio?”

Em geral, os grupos, as tribos, os partidos e as aglomerações de natureza semelhante são guiados por modelos e não por argumentos. Ainda segundo Le Bon, em cada época, um reduzido número de individualidades imprime sua ação, que a massa inconsciente imita. Entretanto, essas individualidades – representadas por políticos corruptos, ditadores da moda, manipuladores do pensamento coletivo, personalidade fabricadas e outros nem sempre bem intencionados – não se afastam muito das ideias preestabelecidas.

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Por essas e outras razões, imitá-las seria bem mais difícil e sua influência praticamente nula. Le Bon também sustenta que é exatamente por isso que os homens muito superiores à sua época – pensadores, sociólogos, analistas, críticos em geral – não tem qualquer influência sobre ela. A distância entre suas ideias e ideias coletivas é muito grande. Além do mais, não lhes oferece alternativas tão promissoras quanto um visual bem produzido e um discurso emocionado.

De fato, a história tem provado o quão inútil tem sido o enfrentamento do inconsciente coletivo sensibilizado e mobilizado por discursos populistas e por histórias de superação do desencantamento e da pobreza. Seria não menos inútil de minha parte imaginar que a humanidade sobrevive desprovida de esperanças e ilusões sem as quais não pode existir. Qualquer pessoa, do meio artístico, político, religioso ou empresarial, que não ouse prometer o suficiente e, em muitos casos, não saiba dissimular o bastante, será tratado como cidadão comum, indigno da credibilidade alheia.

Infelizmente, o povo não precisa de cidadãos comuns. Precisa de deuses, de ídolos, de astros e estrelas fabricados da noite para o dia, de personagens capazes de manter suas ilusões políticas, religiosas, econômicas e sociais em pé de igualdade com as suas conquistas. Apesar de tudo, o desequilíbrio entre os cidadãos comuns e seus ídolos continua abismal, pelo menos em termos econômicos, mas o inconsciente coletivo precisa seguir acreditando em alguma coisa considerando que a filosofia, a liberdade de pensamento e a própria história não conseguem oferecer a eles nenhum ideal capaz de cativá-los.

Isso justifica, em parte, a adoração – dos povos, das tribos e de várias correntes de pensamento – de ídolos fabricados pelo uso das drogas; de políticos corruptos e inescrupulosos que mentem descaradamente e ainda saem fortalecidos pela massa popular considerando que nada foi provado ou uma simples oração basta para corrigir esse pequeno deslize, afinal, era somente alguns milhares de dólares ou reais; de tiranos que sugam seus povos e suas nações enquanto passeiam e discursam impunemente nas tribunas da ONU; de empresários não menos corruptos que amealham fortunas da noite para o dia em meio à sonegação fiscal e ao sorriso hipócrita promovido nas colunas sociais. Diante de tantas evidências que nos desagradam, por vezes, é preferível fazer de conta que tudo não passa de um terrível engano ou, quem sabe, admitir que se trate de uma verdadeira conspiração por parte da oposição.

Como dizia Emerson, o grande pensador norte-americano, toda verdade é feia e deselegante. Talvez por essa única razão o inconsciente coletivo prefira ser iludido de tempos em tempos tornando mestre o seu próprio ilusionista. Talvez por isso qualquer pessoa que tente desiludi-lo acabe se tornando vítima da ignorância alheia e do descrédito. Note que na maioria dos casos o povo acaba sacrificando o denunciante e nunca o denunciado; venerando o tirano e nunca o que se rebelou contra ele; admirando “quem rouba, mas faz” e ignorando por completo quem se arrisca a pronunciar a mais absoluta verdade.

Essa tendência de admirar as pessoas que não conhecemos muito bem não passa de um mero defeito de formação moral e intelectual que pode ser corrigido, desde que haja reconhecimento do fato e propensão para mudar. Como diria Le Bon, “o juízo, a experiência, a iniciativa e o caráter são as condições de sucesso na vida, e não é nos livros que aprendemos.” Quanto mais você se basear em impressões e promessas alheias, maior a submissão e menor a chance de livrar-se da ignorância.

Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler, Alexandre Magno, Joseph Stalin, Mao Tse Tung, Fidel Castro e centenas de personalidades que você talvez admire eram ótimos no discurso e levavam as massas à loucura. Napoleão empurrou mais de três milhões de fiéis soldados para a morte com seu ego incontrolável e sua sede de poder. Hitler induziu uma nação inteira a sacrificar milhares de vidas alheias em nome da supremacia da raça ariana como se o restante não valesse nada. Stalin matou quarenta milhões de russos de fome em nome de um regime socialista que fortalecia a ilusão das massas, mas lhes tirava o pão.

Nossas próprias idéias só se formam através das inúmeras impressões sensíveis que recebemos todos os dias, em casa, na escola, na rua e no trabalho, de todos os contatos preciosos que fazemos e de todo juízo de valor a que somos submetidos. De maneira geral, os erros humanos só podem ser corrigidos pela própria experiência e conquista da sabedoria, entretanto, ambas são virtudes que demoram bem mais do que a ansiedade humana é capaz de esperar.

Não tenho a mínima pretensão de bancar o filósofo de fim-de-semana ao expressar minha indignação diante da incapacidade humana de contestar os abusos de poder e o surgimento em progressão geométrica dos heróis fabricados em todos os países do mundo. Desejo apenas que você torne-se mais seletivo, tenha opinião própria, seja mais crítico em relação à hipocrisia do mundo, pense mais por si mesmo e liberte-se da escravidão imposta pelos discursos inflamados dos políticos que não desejam mais do que a perpetuação do próprio nome. Nascemos todos ignorantes, mas não devemos, necessariamente, morrer assim.

Pense nisso e seja feliz!

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