No fundo das aparências

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Com o intuito de enriquecer esse artigo, tomei a liberdade de pegar emprestado o título de um livro do sociólogo Michel Maffesolli, renomado professor da Sorbonne (Universidade de Paris), para discorrer um pouco mais sobre o lado vazio, e ao mesmo tempo repugnante, daquilo que o autor denomina de formismo (identidades e relações construídas a partir da aparência), crise de identidade e espetacularização do corpo. Antes, porém, quero contar uma pequena história – com “h” mesmo – a fim de facilitar o entendimento e invocar a reação necessária para uma mudança consistente de pensamento.

Há exatamente 20 anos eu recebi a minha primeira promoção numa companhia multinacional do petróleo. De posse de centenas de recomendações, horas e horas de treinamento e muitos votos de sucesso, elaborei um amplo roteiro de visitas e, em menos de duas semanas, passei a visitar cliente por cliente, posto por posto, revenda por revenda, dentro da minha área de atuação, em busca do reconhecimento profissional.

aparencias

A primeira visita você nunca esquece, seja qual for a razão: nervosismo, ansiedade, expectativa, pressão, inexperiência ou coisa que o valha. Quando eu cheguei ao primeiro posto de combustível, na Região Metropolitana de Curitiba, estacionei o carro, apanhei minha pasta com cheiro de couro novo e dirigi-me ao primeiro individuo que encontrei pelo caminho, a fim de reconhecer o terreno e ao mesmo tempo localizar o proprietário do estabelecimento. A imagem não era das melhores, mas era a única alternativa naquele momento.

Cabelos despenteados, chinelos de dedo, mãos sujas de poeira, salvo engano de minha parte, lá estava o sujeito metido num macacão de corpo inteiro com a barriga à mostra por falta de um botão. Apreensivo, aproximei-me dele e fui direto ao assunto: – gente boa, por gentileza, sabe me dizer se proprietário do posto está por aqui? Mais que rapidamente, ele me olhou atravessado e, munido de certo sarcasmo, disparou com aquela voz cantada de matuto: – é claro que sei, está falando com ele!

Fiquei pasmo. Quase caí na tentação de dizer a ele algo do tipo “você está brincando comigo” ou ainda “era só o que me faltava”, mas consegui segurar a língua. Enquanto me refazia do susto, ele tratou de amenizar o impacto: – pelo jeito, você é o Jerônimo da Texaco! Jeito, pensei comigo, que jeito? Sou eu mesmo – repliquei com um sorriso sem graça. Em segundos, ele se desligou do que estava fazendo, convidou-me a ir ao escritório, lavou as mãos e o rosto e, após um gentil aperto de mãos, embalamos longamente num inesquecível bate-papo enquanto devoramos algumas fatias de bolo de laranja e uma jarra de suco que, gentilmente, ele mandou o pessoal do restaurante ao lado preparar.

A partir daquele momento, aos 23 anos de idade, eu passei a entender o significado correto da palavra prejulgamento, do valor equivocado da percepção baseada em modelos mentais e da correlação perfeita entre preconcepção, falta de bom-senso e discriminação. Elas caminham juntas, em sintonia fina e, se não houver cuidado de nossa parte, estarão sempre disponíveis para destruir a reputação e a imagem daqueles que não se enquadram em nosso frágil sistema de valores.

Agora, pasme você! Aquele sujeito cresceu ainda mais e hoje possui uma ampla rede de postos, além de ter se tornado um dos melhores empreendedores que conheço no ramo. E pensar que, a julgar pela sua inesquecível aparência de Zé Ninguém, eu o confundi com um simples empregado, um sujeito qualquer, alguém que a natureza não foi capaz de favorecer.

No fundo das aparências, as coisas são completamente diferentes, as coisas são o que são e ao mesmo tempo as coisas nunca são aquilo que aparentam ser. Por trás de um belo sorriso, de um corpo escultural, de uma aparência saudável e atraente ou de uma fortuna incalculável existem mais mistérios do que a nossa vã filosofia pode imaginar.

De acordo com o escritor e ensaísta Malcom Gladwell, autor de Blink e Ponto de Desequilíbrio, Warren G. Harding era um homem alto, bonito e dotado de um charme capaz de arrebatar os corações femininos em menos de 5 segundos, entretanto, foi considerado pelos historiadores um dos piores presidentes que os Estados Unidos já tiveram. Ao contrário de Harding, Abraham Lincoln era um homem de estatura baixa, sorrido fechado e nunca impressionou alguém pela sua imagem, entretanto, após sua morte, até mesmo seus inimigos o reverenciaram pela grandeza de espírito e abnegação, virtudes que o transformaram numa das figuras históricas mais admiradas do mundo.

Marilyn Monroe, nascida Norma Jean Baker, tinha medidas perfeitas, distribuídas em 1,67 m de altura, 94 cm de busto, 61 cm de cintura e 89 cm de quadril. Suas curvas e lábios carnudos a tornaram mais do que um símbolo sexual na década de 1950, entretanto, sua aparente inocência e doce vulnerabilidade escondiam uma personalidade frágil e misteriosa, incapaz de livrá-la de um destino trágico e irreversível provocado por uma overdose de barbitúricos.

Diferente de Marilyn, Madre Teresa de Calcutá era baixinha, carrancuda e nunca impressionou alguém pelas medidas do seu corpo, mas a sua dedicação aos pobres da periferia de Calcutá e o seu propósito de vida a tornaram uma pessoa especial, reverenciada e aplaudida nos quatro cantos da Terra.

No fundo das aparências, deve existir muito mais dentro de cada pessoa do que aquele corpo escultural moldado a bisturi, do que aquele cenho cerrado incapaz de abrir um sorriso, do que aquele sorriso falso estampado na capa de uma revista, do que aquela sinceridade beirando a hipocrisia. Não estou afirmando que devemos assumir um otimismo ingênuo, do tipo “todos são lindos, todos são gentis” nem de adotar um pessimismo radical, do tipo “todos são ridículos, todos são hipócritas”, pois essas concepções são parciais e limitadas.

Penso que uma visão equivocada ou parcial da realidade limita nossas possibilidades, induz ao prejulgamento e, por vezes, provoca desilusões. No fundo das aparências deve existir, acima de tudo, um ser humano dócil, meigo, criativo, um homem ou uma mulher comum, de quem nada se tirou e nada se acrescentou, como diria Abraham Maslow, psicólogo. Nas palavras de Lao Tsé, filósofo chinês, “as coisas não mudam, portanto, mude sua forma de vê-las e isso bastará.”

Pense nisso e seja bem mais feliz!

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