Fontes de complacência

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Eddy Ficcil é uma figura caricata e onipresente em vários ambientes organizacionais. Ele faz questão de repetir para quem quiser ouvir que não está nem aí para nada e que não vê a hora de se aposentar, mas continua mamando nas “tetas” da organização. Mutante por natureza, alterna entre o sexo masculino e o feminino. De bobo não tem nada e sabe para quem reclama. Questionado, nega descaradamente.

Dia desses encontrei o Eddy na entrada do prédio, mal-humorado como sempre, e logo deu sinal de vida: “Porcaria, em plena sexta-feira o elevador não funciona, era só o que me faltava!” Não disse nem bom-dia antes. Acenei com a cabeça e não quis contrariar, afinal, você nunca sabe o que pode vir dele no minuto seguinte.

Há poucas semanas encontrei o Eddy numa repartição pública. Eu evito esses lugares, mas não havia outro jeito. Disparei um inequívoco “bom-dia” para chamar atenção e fui ignorado. Estava lendo o jornal e, pelo jeito, não queria ser incomodado embora estivesse bem acomodado em frente ao computador, pronto para o combate.

Diante da indiferença fui direto ao ponto: – por gentileza, onde eu posso verificar a origem desse débito que recebi pelo correio? Silêncio absoluto. Sem desgrudar os olhos do jornal e com o dedo indicador apontando para a esquerda, deduzi que deveria ir para outra mesa ou algo parecido.

De fato, seu dedo torto indicava para o terminal eletrônico localizado no corredor onde, possivelmente, eu poderia checar o débito e imprimir o extrato detalhado. Sem trocarmos mais uma palavra sequer, resolvi o problema e saí um pouco frustrado considerando que não já não devia mais nada para o Estado.

Eddy Ficcil utiliza táticas interessantes: chega cedo, nunca falta, faz tudo o que o chefe pede e, não raro, é o último a sair. O que ele faz agrega pouco, mas é melhor mantê-lo onde está. Custa caro demiti-lo embora e o pessoal até se diverte com ele. Um dia, quem sabe, ele se toca e cai fora. Apesar de tudo, ele sorri quando lhe convém, é óbvio, ou quando o perigo se aproxima.

Como ele mesmo sempre gosta de dizer, “ganho pouco, portanto, não preciso fazer muito”. Não o incomode com bobagens do tipo “preciso da sua ajuda” ou “você poderia me fazer um favor?”. Eddy está sempre de “saco cheio” ou com “TPM” e não quer aproximação, afinal, pode sobrar para ele.

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Quando você imagina ter se livrado da figura, Eddy ressurge do além, pronto para destroçar o bom-humor das pessoas. Dei de cara com ele dia desses no aeroporto quando tentei passar ileso pelo detector de metal. Eu quis argumentar, mas fui interpelado sem piedade: – volta sem reclamar, senão vai ser pior, alertou Eddy, imponente em sua farda.

Imaginei o que poderia ser pior do que o constrangimento diante das pessoas ali presentes e calei, afinal, eu já consegui passar a fase da discussão para a fase de ser feliz. Isso tem me ajudado muito nos últimos tempos.

Eddy Ficcil não é fácil, portanto, não discuta com ele se você não goza de poder suficiente para detoná-lo da organização onde trabalha ou mesmo de qualquer outra que você dependa para alguma coisa na vida.

Como diz o meu professor de coaching, “a realidade é o que ela é e não o que você gostaria que fosse”, portanto, relaxe, pare de criar expectativas irreais em relação ás pessoas e procure entender o seguinte: as pessoas são o que são e as empresas são feitas de pessoas, então, se deseja ser feliz, pare de dar importância para coisas insignificantes como essas.

Pessoas assim, do tipo Eddy Ficcil, ainda resistem porque as organizações são abundantes naquilo que John P. Kotter, professor da Harvard Business School, denomina de Fontes de Complacência. Quando as empresas são complacentes com posturas ilícitas e comportamentos inadequados dos seus empregados, tudo o que você tem a fazer é torcer para nunca encontrá-los.

De onde vem a complacência? Segundo Kotter, pode vir de várias fontes: do excesso de recursos aparentes; dos baixos padrões de desempenho geral; da natureza humana com sua capacidade natural de recusa; da falta de feedback das fontes externas; dos sistemas de avaliação internos que focam os índices de desempenho errados; do otimismo exagerado da gerência sênior; de uma cultura de pouca confrontação, pouca sinceridade e desprezo pelo portador de “más notícias” e; da ausência de uma crise maior e aparente.

De acordo com Maquiavel, historiador e diplomata italiano do século XV, “não existe nada mais difícil de assumir, mais arriscado de dirigir e mais incerto quanto ao sucesso do que a introdução de uma nova ordem das coisas”. Concordo plenamente, mas isso não significa que devemos tolerar as esquisitices humanas, principalmente quando prejudicam a reputação da empresa no mercado.

Quero lembrar que ninguém é obrigado a fazer nada contra sua vontade, portanto, para quem não está contente com o que faz existem, no mínimo, três alternativas: 1) conversar com o chefe e expor a situação; 2) ficar quieto e fazer jus ao salário que recebe; 3) cair fora e buscar alternativas mais dignas.

Insistir em algo que nada tem a ver com a sua vocação é uma forma de autopunição cujas consequências serão visíveis somente no dia em que a pessoa não pode fazer mais nada para reverter a triste situação em que se meteu.

Se você é do tipo Eddy Ficcil, repense sua condição enquanto é tempo, reveja seus modelos mentais, mude seu discurso e fuja da tentação de cometer as mesmas bobagens que você repudia em pessoas dessa natureza.

Pense nisso e seja feliz!

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