Em busca de sentido profissional

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Há quase quarenta anos, eu consegui o meu primeiro emprego como Auxiliar de Escritório I na Klabin do Paraná, uma gigante do ramo industrial papeleiro, na cidade onde eu morava. Meus pais se aposentaram na empresa, minha irmã do meio também trabalhou lá por um bom tempo e muitos amigos estão lá até hoje. Ter a carteira registrada na maior empresa do município era um sonho de consumo na época.

Eu tinha salário, uniforme, um ótimo chefe, mesa exclusiva, companheiros inesquecíveis. Eu não reclamava das botas com biqueira de aço, de bater o cartão-ponto às sete e trinta e seis da manhã, do trabalho extra nem das longas idas e vindas a pé durante o dia todo pelas obras, mesmo sabendo que à noite teria uma jornada cansativa de estudos para cumprir.

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O mais importante é que eu tinha crachá, símbolo de dignidade, segurança, status e respeito, além de um pacote razoável de benefícios para minha idade. Quando fui aprovado no exame da Escola Técnica em Curitiba, três anos depois, meu chefe deu a maior força e ainda datilografou uma carta de referência para me ajudar a conseguir emprego na capital. Naquele momento, eu tinha certeza de estar no caminho certo.

Minha mãe se fechou no quarto e chorou ao pensar que eu estava abrindo mão daquilo que ela imaginava ser o emprego ideal, entretanto, minha intuição dizia que as oportunidades não surgiam na vida por acaso e que o futuro promissor não viria sem estudo, determinação e novas experiências. Com muito jeito para convencê-la e uma decisão irrevogável, eu deixei o interior, em Lagoa, para tentar a vida na capital, em busca do emprego ideal, a exemplo de outros milhares de jovens desse país.

O sonho de construir uma carreira brilhante e encontrar o verdadeiro sentido  profissional numa cidade grande foi aplacado, temporariamente, no mesmo instante em que encontrei o primeiro chefe inescrupuloso. No auge da minha impetuosidade juvenil, as adversidades sempre me conduziram para ambientes mais promissores e, aos poucos, eu fui galgando a escada corporativa, de degrau em degrau, sem perder o entusiasmo.

Em trinta e seis anos de história profissional, eu mudei oito vezes de empresa e nunca encontrei o emprego ideal, por uma simples razão: ele não existe. Em todas as profissões, ocupações e gerações, a busca incessante do ser humano por uma zona de conforto maior do que sua própria natureza lhe proporciona um eterno descontentamento.

Eu sempre fico com o pé atrás quando vejo pessoas sendo estimuladas a procurar o emprego ideal como se isso dependesse apenas da boa vontade de cada um. A natureza humana é insaciável e quando uma necessidade é atendida, outra surge imediatamente em seu lugar.

Depois de cinquenta anos de vida, você chega à simples conclusão de que cursos, diplomas, treinamentos, apadrinhamentos ou aconselhamentos de qualquer natureza não poderão ajudá-lo a encontrar o emprego ideal enquanto você estiver associando dinheiro ao sucesso ou sobrevivência ao dinheiro de maneira automática.

O emprego ideal está diretamente associado ao sentido de realização e ao gosto pela vida. É mais ou menos aquilo que Confúcio sempre pregou, encontrei algo que você goste de fazer e nunca mais vai trabalhar na vida, ou seja, encontre um sentido na vida.

Conheço poucos os casos de pessoas dispostas a abrir mão de um bom salário ou de um ótimo cargo para se dedicar a projetos mais nobres, talvez menos rentáveis, porém mais alinhados com a sua vocação original. Em geral, isso ocorre quando a pessoa já sacrificou parte da vida e da saúde numa corrida desenfreada pelo dinheiro.

O emprego ideal depende de uma série de fatores que apenas o tempo, transformado em experiência de vida, é capaz de proporcionar. Por essa razão, os empregos, os cargos e as empresas se tornaram ainda mais transitórios com a virada do milênio.

Os objetivos estão sempre além do que já foi alcançado e a maioria imagina que o emprego dos outros é melhor do que o seu. Por essa razão, existe sempre um substituto pronto para ocupar o seu lugar e enquanto você está cobiçando o lugar do chefe, alguém está cobiçando o seu.

Meu pai trabalhou trinta anos na mesma empresa e não encontrou o emprego ideal, mas ele tinha uma grande vantagem sobre muitos, ele não reclamava. Conheço dezenas de pessoas com mais de sessenta anos que ainda não sabem o que fazer da vida e outras tantas que continuam esperando a aposentadoria para, então, se dedicar ao emprego dos seus sonhos.

Portanto, mudar de emprego não basta, é necessário encontrar-se interiormente, ser menos crítico, mais decidido, menos ansioso, estabelecer pequenas metas e ainda preparar-se para alcançá-las. Quando se sentir ameaçado, desmotivado e triste com o cargo e o salário, basta comparar o estágio onde você se encontra com o dos demais da sua geração e você verá que a situação não é tão ruim quanto parece.

Talvez eu ainda não tenha encontrado o emprego ideal, mas procuro dar um sentido para a minha vida. Creio que mais importante do que encontrar o emprego ideal é nunca deixar de persegui-lo, pois, nas palavras de Viktor Frankl, PhD. Da Universidade de Viena, o sentido da vida sempre se modifica, mas jamais deixa de existir.

Torço muito para que você encontre o sentido profissional e pessoal, não deve ser fácil trabalhar em algo que não tem nada a ver com o seu propósito de vida.

Pense nisso e seja bem mais feliz!

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