Em busca da verdade

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Um dos maiores desafios dessa nova era, denominada pelos estudiosos de Pós-Modernidade, é encontrar alguém que aceite um único discurso como verdade absoluta. Em sociedades pluralistas como a nossa, ninguém mais admite ou acredita que existe um dono da verdade.

Numa era em que a informação, boa ou ruim, distorcida ou não, caminha numa velocidade estonteante e está disponível para todos através da Internet, cada um sente-se no direito de contestar, criticar, postar ou ainda se apossar sem pudor daquilo que lhe convém.

Na prática, é mais fácil alguém copiar, colar, enxovalhar, fazer chacotas e dizer tudo aquilo que nunca teria coragem se fosse necessário colocar o nome completo e o endereço oficial para todo mundo ver. Como afirmou Gustave Le Bon em Psicologia das Multidões, “sozinhos somos frágeis; em bando ou no anonimato, somos poderosos”.

 Já que ninguém mais é dono da verdade e a Internet permite que se diga qualquer bobagem a qualquer tempo, o anonimato estimula a discussão sem que, necessariamente, se chegue a conclusão alguma. Basta ler os comentários que proliferam aos milhares em portais e sites de relacionamentos sem o menor sentido ou contribuição para o debate sadio quando o assunto é polêmico.

A resultante é um emaranhado de palavras desconexas que confunde quem sabe pouco, irrita quem sabe um pouco mais e enaltece o ego de quem não tem nada para acrescentar e está pouco se lixando para o que vão dizer. O que predomina é o instinto primitivo disfarçado de liberdade de expressão.

Como se pode notar, qualquer manifestação de pensamento na web, seja qual for a origem, é ridicularizada. Pouco importa se o indivíduo é pensador de Oxford, Harvard, Stanford ou Yale. Ao mais comum dos mortais cabe o direito de fazer oposição ainda que este não tenha a mínima ideia do que se trata.

A linguagem da web tem essa facilidade. Consegue reduzir uma tese de doutorado – que alguém levou anos para concluir – a uma simples frase pronunciada no calor da emoção. O que Einstein levou quarenta anos para comprovar, depois de estudar sistematicamente o assunto, é resumido na web da seguinte maneira: “a relatividade não é um bicho-de-sete-cabeças”.  E há quem ache isso o máximo.

Tudo fica mais simples depois que alguém se dedica, estuda, enfrenta a resistência e, finalmente, comprova uma ideia. Não ficou bem mais fácil depois que Steve Jobs criou o Mac, Bill Gates o Windows e Thomas Edson a lâmpada incandescente? Ou você prefere acreditar que a geração atual, a despeito de toda intimidade com a tecnologia, é responsável por tudo isso?

Apesar de tudo, a firmeza de convicções não é, necessariamente, bem-vinda. Se a verdade não for colocada no mesmo nível de entendimento ou na mesma linguagem das massas, pode soar arrogância extrema, empáfia, soberba e outros predicados menos confortantes.

Por essas e outras razões, os cientistas, os pesquisadores, os escritores e os críticos são mal compreendidos. Eles conhecem o caminho das pedras, em geral são isentos e possuem argumentos sólidos para defender o seu ponto de vista, mas a verdade já não é mais a mesma.

verdade

Agora, mais do que nunca, ela pertence a todos e, ainda que se trate de uma sucessão de mentiras, há quem prefira defendê-la até a morte, afinal, dissimulados também cultivam seguidores.

A grande verdade de tudo isso é que hoje temos de aprender a conviver com bilhões de pontos de vista diferentes. Colocar-se no lugar do outro e procurar a verdade no pensamento alheio não é, necessariamente, confortável, mas não deixa de ser um exercício de temperança.

Aos poucos, a gente vai aprendendo a utilizar a sabedoria do juiz sufi que atribui razão para todos embora você não precise concordar com todos. Basta respeitar – e ignorar – o ponto de vista contrário. O embate não é necessariamente produtivo.

Toda verdade é feia e deselegante, dizia Emerson, o grande pensador norte americano, portanto, a minha verdade não é necessariamente a sua e vice-versa. O fato de não nos amarmos não significa que não possamos conviver de maneira pacífica.

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer afirmou que a verdade passa por três estágios distintos: em primeiro lugar, é ridicularizada; depois, sofre uma violenta oposição; por fim, é aceita como verdade.

A verdade só será aceita como verdade se for congruente com os seus valores e incorporada por livre e espontânea vontade. Querer impô-la a alguém ou aceitar a verdade alheia de maneira passiva é a pior das escolhas. Discernimento é a palavra-chave.

Certamente, posso lhe oferecer muito e também posso aprender muito contigo. Quando se trata de verdade, cada um tem a sua e, desde que a verdade individual não atropele os princípios universais, será sempre verdade. O que muda é o ponto de vista.

Por fim, nunca deixe de professar a verdade embora seja necessário engolir algumas inverdades alheias de vez em quando. Cultivar a verdade nos dias de hoje é um ato de heroísmo diante de tamanha hipocrisia. A diferença entre a verdade e a hipocrisia é que a primeira é mais fácil de ser assumida.

Pense nisso e seja feliz!

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