Contradições da cidade luz

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Acabo de voltar ao Brasil depois de dez dias em Paris onde se pode ficar embasbacado e ao mesmo tempo indignado. Por onde quer que você ande existe algo para ser admirado em termos de patrimônio histórico, artístico e cultural, misturado em meio à pobreza de espírito que tomou conta da cidade.

Uma semana em Paris é suficiente para se ter uma ideia de para onde caminha a humanidade. Gente saindo pelo ladrão, como se diz na gíria, de todos os tipos, cores, países, culturas, línguas e religiões. O mundo se encontra na Cidade Luz e modifica o visual do ambiente.

Paris é de encher os olhos, tal como Nova Iorque e Rio de Janeiro, porém depois de alguns minutos caminhando ao redor da Torre Eiffel você começa a sentir saudades de casa. O que se vê são imigrantes ilegais, lixo acumulado por todos os cantos, filas intermináveis para compra de ingresso e camelôs ilegais de todas as nacionalidades correndo do arrastão policial parisiense.

Se por um lado a diversidade é algo que enriquece a cultura de qualquer país, por outro, tende a acelerar a decadência de um povo. Do jeito que as coisas vão talvez não existam mais franceses legítimos na capital daqui a algum tempo. É o preço que se paga pela beleza da sua arquitetura, pela riqueza da sua história, pela facilidade da imigração, pela falta de repressão e pelo progresso.

Talvez eu tenha sido crítico demais, mas o fato é que a cidade vive uma contradição: não consegue ser bonita e ao mesmo tempo limpa. Todos os dias, é invadida por milhares de pessoas de muita cultura e pouca cultura, muita educação e pouca educação, muito dinheiro e pouco dinheiro.

Na minha modesta opinião, não há dinheiro que compense a falta de educação e a falta de cultura. Não importa o país onde se vive. Quando você vê tanto lixo acumulado pelas ruas e praças, pessoas comendo e bebendo no meio da calçada sem a menor preocupação com o meio ambiente, restaurantes entupidos de gente desperdiçando copos e mais copos de plástico, é de ficar meio paranóico. Onde vai parar todo esse lixo?

Penso que o mau humor do parisiense também contribui para isso. Salvo raras exceções, ninguém faz o mínimo esforço para agradar. A impressão que se dá é a de que os comerciantes em geral estão lhe fazendo um favor, principalmente os burgueses, classe constituída de legítimos herdeiros da Idade Média. As exceções são um achado.

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No interior é um pouco diferente. As pessoas se esforçam mais ou pelo menos sorriem. Como a dependência do turista é maior, a disponibilidade também, principalmente a dos jovens que comunicam em outras línguas que não o francês, diferente dos adultos que não falam outra língua e quando entendem algo fazem de conta que não.

Apesar de tudo, é possível suportar o mau humor do parisiense, o inglês sofrível dos motoristas de táxi – na maioria, estrangeiros -, as filas intermináveis para visitar as principais atrações da cidade, o preço alto dos cafés e restaurantes que, aqui entre nós, são muito mais propaganda que sabor. Prometo para todos os meus fiéis leitores que nunca mais vou reclamar da comida brasileira.

Existe algo que é difícil de engolir fora do Brasil: o tal do brasileiro que quando vê que você é brasileiro faz de conta que não é brasileiro. Isso não é só na França. Em Nova Iorque, São Francisco, Buenos Aires e em outras cidades do mundo você encontra brasileiros que não dão a mínima para outros brasileiros. Não que eles tenham obrigação de fazê-lo, mas educação não escolhe local.

Há muito tempo eu tento entender essa arrogância desnecessária, afinal, estamos longe da nossa terra tentando atingir objetivos semelhantes. Não devemos nos amar, mas podemos pelo menos nos suportar, sorrir levemente, fazer uma ou outra pergunta boba para estabelecer contato mínimo. Nesse sentido, penso que os nossos irmãos portugueses estão mais evoluídos.

Paris é tudo o que se lê nos livros e muito mais. Milhares de anos de história compensam qualquer sacrifício. Além do patrimônio histórico, a cidade ainda conserva todo o glamour da belle époque, herança formada de Luis XIV, o Rei Sol, a Napoleão III, figuras antagônicas e emblemáticas que, a despeito de todas as suas vaidades, souberam fazer do país um centro artístico, histórico e cultural inquestionável.

Paris é a terceira cidade mais visitada do mundo. Se fosse o presidente daquele país eu triplicava o efetivo policial para coibir o mau comportamento, combatia duramente a imigração ilegal e instituía multas pesadas para pessoas deseducadas e preguiçosas flagradas jogando lixo nas ruas e poluindo a cidade.

Pessoas que não tem o mínimo zelo pelo meio ambiente dentro e fora do país de origem não são dignas das suas maravilhas. O que está em jogo nesse caso não é a origem das pessoas nem mesmo a sua condição econômica e financeira, mas um legado histórico incalculável a caminho da extinção.

Por tudo isso, penso que a cidade cobra muito pouco para expor a arte que abriga. Talvez seja uma forma de compensação por alguns séculos de invasão e expropriação do patrimônio alheio, mas se alguém não tivesse a coragem de fazê-lo, talvez não restasse mais nada para admirar.

De minha parte, só resta contemplar vinte séculos de história e torcer para que a história não seja derrotada pela falta de consciência em todos os níveis. Visite Paris e compartilhe a experiência de se indignar com as toneladas de garrafas plásticas jogadas pelas praças e navegando pelo Rio Sena. É de cortar o coração.

Pense nisso e seja feliz!

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