A água nossa de cada dia

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Esperar passivamente a ação dos governantes deixará de ser a nossa única opção nos próximos dez anos, se quisermos reverter parcialmente o caos no sistema de abastecimento de água e geração de resíduos provocados pela aglomeração das pessoas nas grandes cidades, a falta de investimentos no setor e a expansão populacional.

Na medida em que o padrão de vida das pessoas aumenta, o consumo de água também aumenta, pois há uma corrente sucessiva de eventos na mesma direção. Em tese, se eu ganho mais, consumo mais, as empresas produzem mais, o desafio do lixo aumenta e a dor de cabeça dos governos conscientes também. E onde quer você decida atuar ou se beneficiar, não há como não pensar em água.

Por um lado, as classes mais favorecidas se defendem já que possuem recursos financeiros e, na crença de que isso é papel do governo, não estão muito preocupadas com a situação. Por outro, as menos favorecidas não querem perder o bonde do crescimento econômico e vão abarrotando suas casas de aparelhos eletrodomésticos e outras facilidades tecnológicas na esperança de amenizar um pouco a sua triste condição.

A questão é intrigante: se todas as classes lutam ferozmente para melhorar o padrão de vida ou para preservar o que já conseguiram, quem é que vai abrir mão de algo para preservar o pouco que ainda nos resta?

O individualismo exacerbado que tomou conta do ser humano nas três últimas décadas não permite um olhar sistêmico sobre o meio ambiente, ou seja, vivemos o hoje como se não houvesse manhã. Na prática, o “salve-se quem puder” desencadeia inúmeras correntes de ideias contrárias a tudo aquilo que é necessário fazer para reverter a situação.

água

Você conhece alguém que optou por tomar menos banho ou tomar banho em menos tempo para economizar água? Ou alguém que deixa o carro na garagem e segue para o trabalho de ônibus para reduzir os índices de emissão de gás carbônico na atmosfera? Ou ainda alguém que evitar lavar a calçada apenas com o esguichar da mangueira?

Apesar de tudo, existem iniciativas louváveis nesse sentido. Um bom exemplo é o condomínio ecologicamente correto que surgiu na área rural de Piraquara, município da Região Metropolitana de Curitiba. Não se trata de estratégia de marketing de alguma incorporadora. A ideia é simples. Um grupo de amigos apaixonados pela natureza decidiu comprar terrenos na mesma região, próximo às nascentes do Rio Iraizinho. Atualmente, são 22 proprietários, todos indicados pelos próprios vizinhos.

Nas propriedades, tudo é pensado para reduzir o impacto ambiental: a maior parte da vegetação nativa é preservada; o esgoto é tratado em um sistema com raízes de plantas; a água utilizada vem de poços artesianos ou é captada da chuva; e as paredes das construções são de tijolos de solo-cimento (que não são aquecidos em fornos, portanto sem emitir gases na atmosfera); entre outras soluções. Além disso, a intenção é formar um corredor de biodiversidade até a Serra do Mar a partir das matas de cada propriedade.

Essa é uma das iniciativas pensadas por alguém que deseja o melhor para os seus filhos e netos. Quando buscamos as estatísticas de consumo no Brasil e comparamos com os países da Europa, por exemplo, ficamos chocados em saber que utilizamos água na proporção de quatro, cinco ou até mesmo dez vezes mais do que eles todos os dias.

Em algumas regiões dos Estados Unidos, o consumo diário per capita chega a 600 litros, muito inferior ao da Europa onde o consumo varia entre 60 a 100 litros. Não há civilização nem planeta que resista a um consumo dessa natureza, portanto, se não começarmos a nos mexer agora, não há esperança para nós. Meu objetivo não é pregar o caos no futuro, mas despertar a consciência para o caos que já faz parte de nossas vidas.

A grande realidade é que, para solucionar os problemas da escassez da água e suas implicações, seria necessário repensar toda a nossa condição de vida, dos hábitos de consumo aos hábitos de conscientização. E não são muitas as pessoas que estão dispostas a fazê-lo.

Por essas e outras razões, John Gray, renomado filósofo britânico e Professor de Oxford, concluiu que a população da Terra será reduzida a 500 milhões de pessoas até o ano 2150.

Se você deseja perpetuar o seu DNA até lá, comece a pensar em como preservar as nascentes, cultivar água limpa, consumir menos, poluir menos, fazer a parte que lhe cabe nesse latifúndio. Seus bens são de propriedade exclusivamente sua. Goste ou não, a água é de propriedade indiscutivelmente coletiva.

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