A boa leitura

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Tenho lido com frequência diversos artigos, revistas e outros periódicos dedicados ao mundo corporativo, alguns de autores renomados, outros nem tanto, por conta do meu interesse e necessidade de autodesenvolvimento, com foco maior para os que apresentam fórmulas mágicas para o sucesso pessoal e profissional.

Quando você lê um artigo disponível numa revista de renome nacional, especialmente aquelas de capa e matérias bem produzidas, cujo enfoque maior é vender anúncios, não necessariamente ensinar, há de ter senso crítico apurado e muito discernimento para não se deixar influenciar por um conteúdo escrito sob medida para aguçar a sua frágil percepção sobre o assunto. Algumas matérias podem incendiar a sua motivação que anda meio em baixa, porém a busca pela realidade pode acabar provocando uma ponta de frustração.

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A primeira impressão que se tem, ao se deixar levar pela emoção, é a de que todo mundo está bem, menos você. É raro encontrar exemplos de alguém que não está bem profissionalmente ou que está descontente com a empresa, pois se estivesse, talvez não fosse convidado para participar da matéria.

Em geral, o entrevistado é um profissional que acabou de ser promovido, transferido ou assumiu uma filial da empresa num país distante. A última coisa que ele pretende fazer no momento é criticar a empresa e o chefe. Além do mais, em razão da cultura combalida da qual fazemos parte, quem não gosta de aparecer nas revistas? Você conhece alguma revista dedicada a pessoas mal-sucedidas?

O mais interessante é que muitos artigos e matérias encomendadas pelos editores são escritos por pessoas que nunca participaram de um projeto de gestão, de um planejamento estratégico, de uma reestruturação organizacional ou mesmo da simples criação de uma empresa. Por alguma razão, elas são convidadas a opinar sobre algo que pouco ou nada tem a ver com o seu dia-a-dia e pelo fato de estarem o tempo todo na mídia ou serem ligadas a uma Universidade ou algo parecido, o que vale mesmo é o título.

É muito mais fácil discorrer sobre determinado assunto quando você tem acesso à mídia e qualquer baboseira, dita sem o mínimo de embasamento, pode ser acatada por pessoas de todos os níveis. A mídia é especialista em criar mitos da noite para dia, como se eles fossem a salvação do planeta embora eles não movam um dedo para melhorar a sociedade. É capaz de derrubá-los também na mesma velocidade.

Quando se fala de liderança, por exemplo, uma boa parte dos autores nunca liderou uma pessoa sequer, mas como a Internet democratizou a informação, e aliado a um pouco de interesse, fica fácil obter um vasto material a respeito para compilar o raciocínio alheio e escrever algo parecido.

O sucesso pessoal e profissional é um processo que demanda anos de esforço, aprendizado e experiência. Não existe fórmula mágica capaz de produzir um talento profissional da noite para o dia. Quando isso ocorre, suas deficiências afloram rapidamente e acabam traindo a própria empáfia. Aquela força temporária acaba sucumbindo diante da própria fraqueza.

Quando nos faltam equilíbrio e convicção, nossas idéias e nossos ideais são colocados em xeque, principalmente ao assumir um cargo de maior importância na empresa ou na sociedade e passamos a ser testados com maior freqüência com relação à ética, valores e princípios. Quando imaginamos saber de tudo e pensamos que nada mais pode nos derrubar.

Nesse sentido, a ideia transmitida nas revistas e outros periódicos, de que jovens executivos – em geral recém-diplomados com seus MBA’s de alto nível e valor – têm mais energia, são mais produtivos e acabam sendo mais cobiçados, começa a perder fôlego, graças ao bom-senso dos especialistas em recrutamento de pessoal.

Ultimamente, tenho percebido, com mais freqüência que o habitual, que as empresas continuam preocupadas com a contratação de profissionais de alto nível, porém com a experiência necessária para equilibrar o nível de produtividade e extrair o melhor das equipes. Significa que diploma e energia serão suficientes apenas para cargos iniciantes, onde o desbravamento depende exclusivamente do ímpeto juvenil. Entretanto, para cargos de liderança, o que vale mesmo é a velha e sólida experiência profissional, aquela que somente o tempo é capaz de proporcionar.

Por razões diversas, e perfeitamente explicáveis, a geração atual de jovens líderes profissionais ainda tem dificuldades para mesclar a própria energia com a experiência dos mais velhos. Em geral, suas ações, determinadas pelo seu comportamento agressivo, acabam atropelando e frustrando a carreira de milhares de profissionais que ainda tem muito a contribuir. Para eles, é mais fácil livrar-se dos experientes do que conviver ou enfrentá-los em igualdade de condições.

Por mais que as revistas especializadas priorizem a divulgação de casos pontuais de sucesso de jovens executivos que assumem cargos de importância antes mesmo dos trinta anos de idade, o fato é que equilíbrio e sabedoria não podem ser antecipados. São necessários muitos anos de convivência com diferentes tipos de profissionais para se criar um estilo acurado de administração e entendimento do processo de crescimento profissional e liderança.

Devemos tomar o exemplo do Japão, um país praticamente destruído pela guerra, que se tornou uma grande potência econômica mundial, sem se descuidar nem desprezar a importância da experiência profissional para cargos de liderança. Para se chegar a um cargo de gerência, diretoria ou presidência naquele país, existe um tempo de aprendizado e amadurecimento, próprio de quem atingiu um nível de sabedoria digno de tal cargo.

Estar gerente ou estar diretor é algo muito simples, porém atuar com o discernimento e o equilíbrio necessário para o bom desempenho do cargo é outra história. O mesmo vale para falar e escrever a respeito de determinado assunto. Qualquer pessoa com interesse mínimo pode copiar e colar facilmente um tema na internet e produzir algo semelhante para leitura.

Nas palavras de Emerson, o grande pensador norte-americano, por trás de um bom livro ou de um bom texto deve existir, antes de tudo, um grande ser humano. Portanto, tome muito cuidado com sua leitura para não se tornar refém de uma ideia que nada tem a ver com o seu modo de pensar e agir. Discernimento, senso crítico, intuição e bom senso ainda são ingredientes essenciais para quem deseja construir um raciocínio sólido e distinguir entre as coisas que valem a pena e as banalidades do mundo.

A opinião é mais barata do que uma caixa de fósforos e, geralmente, cada pessoa tem uma diferente, portanto, ao ler um artigo, uma revista, um livro ou um jornal, lembre-se que, para fazer sentido e ser tomado como exemplo, o raciocínio alheio não deve se sobrepor aos seus valores e princípios, caso contrário, você nunca construirá o seu próprio conjunto de idéias e valores.

Apesar de tudo, continue lendo, com muito cuidado para absorver apenas aquilo que realmente faz sentido. Como dizia jornalista e escritor Paulo Francis, “quem não lê não pensa e quem não pensa será para sempre um servo.”

Pense nisso e seja feliz!

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